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Feijoada do Mar celebra Iemanjá com chefs do Espírito Santo, Minas e Bahia no Orí e Megiro

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Almoço especial reúne Bárbara Verzola, Pablo Pavón e Henrique Gilberto ao lado de Fabricio Lemos e Lisiane Arouca em homenagem à Rainha do Mar

Feijoada do Mar é o nome do almoço especial que toma conta do Orí e Megiro no dia 2 de fevereiro, quando Salvador se pinta de azul e branco para celebrar Iemanjá. Promovido pelo Grupo Origem, o evento reúne grandes nomes da gastronomia brasileira em uma homenagem à Rainha do Mar, mesclando sabores oceânicos e tradição culinária em um encontro que promete ser memorável.

A convite dos chefs Fabricio Lemos e Lisiane Arouca, anfitriões da casa, participam da experiência Bárbara Verzola e Pablo Pavón, do consagrado Soeta, de Vitória (ES), e Henrique Gilberto, da premiada Cozinha Tupis, de Belo Horizonte (MG). Juntos, eles assinam um menu colaborativo que reverencia os frutos do mar, os saberes tradicionais e a criatividade da alta gastronomia brasileira.

Feijoada do Mar: Sabores de um Brasil profundo e diverso

No centro da mesa, a estrela do dia é a feijoada de frutos do mar, criação do chef Fabricio Lemos. Os convidados completam o cardápio com snacks e entradas autorais, que traduzem suas vivências culinárias regionais. A doçura vem das mãos da chef-pâtissière Lisiane Arouca, com uma ilha de sobremesas pensada para fechar a experiência com frescor e afeto.

Além do banquete, o evento conta com open bar de cervejas (Corona e Stella Artois) e bebidas não alcoólicas. Vinhos e drinques estarão disponíveis à parte, garantindo uma jornada sensorial completa. As vagas são limitadas, com ingressos a R$ 550 por pessoa — uma oportunidade rara de provar criações de chefs premiados em um único serviço.

Cozinha como território de encontro

Bárbara Verzola e Pablo Pavón, parceiros no restaurante Soeta, trazem uma bagagem multicultural refinada. Ela, capixaba, soma passagens por casas italianas estreladas e pelo lendário El Bulli, onde conheceu Pavón, chef equatoriano com formação sólida na Europa. Já Henrique Gilberto, de Belo Horizonte, cultiva uma cozinha sensível aos ingredientes mineiros, lapidada por experiências com Alex Atala, Massimo Bottura e pelo mentor Yoji Tokuyoshi, em Módena.

Essa reunião de talentos reflete a proposta do Grupo Origem desde 2016: promover intercâmbios entre cozinheiros de origens distintas, em uma troca criativa que valoriza a diversidade da gastronomia brasileira contemporânea.

Iemanjá, rainha do mar e da cidade

O almoço no Orí e Megiro conecta-se ao espírito da Festa de Iemanjá, uma das celebrações mais emblemáticas de Salvador. Desde 1923, pescadores e devotos se reúnem no bairro do Rio Vermelho para homenagear a orixá das águas salgadas, oferecendo flores, perfumes e pedidos ao mar.

Hoje, a festa se espalha por toda a cidade, misturando tradição religiosa, cultura popular e turismo. Reconhecida como Patrimônio Cultural de Salvador em 2022, a celebração começa na véspera, com cortejos, capoeira e música, e segue até o amanhecer do dia 2. O almoço da Feijoada do Mar é mais uma forma de viver essa experiência, com o paladar como guia.

Serviço

Feijoada do Mar em homenagem a Iemanjá
📍 Orí e Megiro – Av. Santa Luzia, 656 – Horto Florestal, Salvador
📅 02 de fevereiro, das 12h às 18h
🎟️ Valor: R$ 550 por pessoa (inclui open bar de cervejas e bebidas não alcoólicas)
📲 Reservas: (71) 98890-8357


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Degustar vinhos é treinar os sentidos

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O repertório sensorial começa fora da taça

Degustar vinhos é o ponto de partida da nova coluna de Carol Souzah, que desmonta o mito de que identificar aromas é um talento reservado a iniciados. Com linguagem sensível e acessível, ela nos lembra que degustar é, antes de tudo, um exercício sensorial, de corpo inteiro, sendo um verdadeiro treino do olhar, do olfato, do tato, do paladar e, acima de tudo, da memória.

Em um mundo que anestesia os sentidos com ar-condicionado e fragrâncias artificiais, a taça vira um convite ao desacelerar, ao respirar com atenção e reconhecer o que já vive em nós: lembranças de feira, cozinha, terra molhada, flor no quintal. Carol defende que o olfato não é uma habilidade de poucos, mas um músculo coletivo que só precisa ser exercitado.

Essa coluna é também um convite ao autoconhecimento sensorial. Degustar vinhos é degustar tempo, presença e confiança.

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Degustar vinhos é treinar os sentidos

Uma das frases que mais escuto quando conduzo cursos ou degustações é: “eu não sinto nada no nariz”. Às vezes vem acompanhada de frustração, às vezes de vergonha, como se perceber aromas no vinho fosse um dom reservado a poucos. A boa notícia é simples: sentir aromas no vinho não é talento, é treino.

Degustar vinhos é, antes de tudo, um exercício sensorial. Envolve visão, olfato, paladar e memória. Mas é no nariz que muita gente trava. Não porque o vinho não tenha aromas, e sim porque nosso olfato anda pouco estimulado no dia a dia.

Beber vinho é uma experiência multissensorial. Ele envolve o corpo inteiro. O olhar, o toque, o cheiro, os sons, tudo se mistura para construir a memória daquele momento. Dos cinco sentidos, o vinho desperta todos. O olfato reconhece aromas que nos remetem a lembranças afetivas. O tato percebe a temperatura do vinho, a textura na boca, o peso da taça. O som do vinho sendo servido ou da rolha se soltando já prepara o corpo para a experiência. Até a visão importa: a cor do vinho no copo, o brilho, a luz do ambiente, o rótulo. Nada é detalhe, tudo soma.

Vivemos em ambientes cada vez mais neutros, climatizados, com cheiros artificiais e repetitivos. Isso empobrece o repertório olfativo. Quando a pessoa leva a taça ao nariz, espera identificar algo muito específico e, quando isso não acontece, conclui que não sente nada. Na verdade, sente sim, só ainda não sabe nomear.

Durante as degustações que conduzo, costumo dizer que o aroma do vinho não está apenas na taça, ele está na nossa memória. O vinho desperta referências. Para alguém pode lembrar fruta madura, para outra pessoa pode remeter a um chá, a um tempero da cozinha, a um passeio no mercado. Nenhuma dessas percepções está errada.

Treinar o nariz começa fora do vinho. Ir à feira, cheirar frutas, ervas, especiarias. Prestar atenção aos cheiros da cozinha, do café, da terra molhada, das flores. Quanto mais você cheira conscientemente, mais seu cérebro cria repertório sensorial.

Outro ponto importante é desacelerar. Em muitas degustações percebo que as pessoas cheiram rápido demais. O olfato pede tempo. Girar a taça com calma, aproximar o nariz sem pressa, respirar. Às vezes o aroma não aparece no primeiro instante, ele se revela aos poucos.

Também reforço que não é preciso sentir tudo. Nem profissionais sentem tudo o tempo inteiro. Degustar não é um teste, é uma experiência. Quando tiramos o peso da performance, os sentidos se abrem.

O nariz prepara o paladar. Grande parte do que chamamos de sabor vem do olfato. Quando ele está mais atento, a boca entende melhor o vinho, sua textura, sua acidez, seu equilíbrio.

Degustar vinhos é treinar presença. É aprender a confiar nas próprias percepções e aceitar que elas mudam com o tempo. Quanto mais você se permite sentir sem julgamento, mais o vinho se revela.


Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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Espumantes: o vinho que marca o tempo

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Chega dezembro, e com ele o som mais simbólico da virada: o estouro da rolha. Mas, como nos lembra Carol Souzah, espumante não é só celebração é um gesto coletivo, ritual de passagem. Na última coluna de 2025, Carol reflete sobre o papel simbólico e sensorial dos espumantes, desconstrói preconceitos e traz recomendações certeiras para quem deseja brindar o ano novo com mais intenção e menos automatismo.

Em um texto que equilibra informação, poesia e crítica leve, ela mostra que espumante é, sim, vinho, e dos mais versáteis. Vai muito além da meia-noite e pode (e deve) estar à mesa, do primeiro petisco ao prato principal.

Entre brasileiros de respeito e clássicos franceses e ibéricos, Carol entrega uma curadoria afetiva e acessível, pensada para brindar com verdade. Porque a virada do ano merece mais do que apenas borbulhas. Merece propósito.

Espumantes: o vinho que marca o tempo

Existe um motivo pelo qual o espumante insiste em aparecer nos momentos de virada. Não é só pela festa, nem apenas pelas borbulhas. Espumante é vinho que marca o tempo. Ele anuncia começos, brinda amores, celebra novos ciclos, sela encontros e negócios. No Réveillon, mais do que uma bebida, ele se transforma em gesto simbólico de abertura de caminhos — quase um ritual coletivo de esperança e renovação.

Com isso tudo, acho curioso perceber como, mesmo tão presente, o espumante ainda é pouco compreendido. Para muita gente, ele segue restrito às festas, aos casamentos, ao brinde apressado da meia-noite ou à ideia de um vinho “leve demais” para acompanhar a comida. Nada poderia ser mais injusto com um dos estilos mais versáteis e gastronômicos do mundo do vinho. Já ouvi frases como “não gosto de espumante, só de vinho”, quando, na verdade, o espumante é vinho — com gás.

Esse gás pode surgir naturalmente durante o processo de elaboração ou ser preservado para manter frescor, vivacidade e a sensação de leveza na taça. Espumantes podem ser simples ou complexos, diretos ou profundos, e muitos deles têm estrutura, textura e enorme capacidade gastronômica, comparáveis — ou até superiores — a diversos vinhos sem borbulhas.

As borbulhas não estão ali apenas para fazer festa. Elas limpam o paladar, despertam a boca, equilibram gordura, realçam sabores. Por isso, espumantes funcionam tão bem com entradas, frituras, frutos do mar, pratos com acidez, molhos cítricos, queijos frescos e até carnes mais delicadas. Um bom espumante brut ou extra brut pode acompanhar uma ceia de Réveillon inteira, do primeiro petisco ao prato principal, com elegância e frescor.

Outro ponto importante é que espumante não é tudo igual. Método de produção, tempo de contato com as leveduras, uvas utilizadas e origem fazem toda a diferença no perfil do vinho. Um espumante feito pelo método tradicional — aquele mesmo do Champagne — tende a ser mais cremoso, complexo, com notas de pão, brioche e amêndoas. Já os ancestrais, os famosos pét-nat, costumam ser mais rústicos, vibrantes, espontâneos, com uma energia quase indomável. Ambos têm espaço na mesa. Tudo depende da proposta e do momento.

No Brasil, especialmente na Serra Gaúcha, temos espumantes de altíssima qualidade, com acidez natural, frescor e preços muito mais acessíveis do que muitos rótulos importados. Olhar para os espumantes nacionais no Réveillon é também um gesto de consciência, valorização do terroir e — por que não? — de surpresa positiva para os convidados.

E se existe uma dica de ouro para essa época do ano, ela é simples: escolha espumantes mais secos — brut, extra brut ou nature. Eles harmonizam melhor com a comida, cansam menos o paladar e permitem que o brinde se estenda para além da primeira taça.

Para quem ainda acredita que escolher um bom espumante para o Réveillon é questão de sorte ou de preço, fica o convite para olhar com mais atenção. Há espumantes para todos os bolsos, estilos e mesas — rótulos acessíveis e surpreendentes, outros mais sofisticados e cheios de camadas — todos capazes de acompanhar a virada do ano com personalidade e intenção.

A seguir, compartilho algumas dicas facilmente encontradas na internet e que podem elevar o seu Réveillon a um brinde verdadeiramente especial:

Sugestões para brindar com mais intenção

CASA VALDUGA ARTE BRUT ROSÉ – VALE DOS VINHEDOS, RS, BRASIL
Esse é o coringa da festa. Leve, fresco, democrático e com ótimo preço, agrada todo mundo na mesa. Ideal para brindar, acompanhar entradas e circular a noite inteira sem erro.

PÉT-NAT GLERA CASA VICCAS – SERAFINA CORRÊA, RS, BRASIL
Para aqueles que gostam de espumantes com alma e zero formalidade. Um pét-nat de Glera fresco, leve e cheio de energia, ótimo para abrir a noite, beber sem cerimônia ou acompanhar entradas, petiscos, antepastos e pratos leves. Borbulhas vivas, clima descontraído e aquele vinho que convida a brindar mais uma vez.

ESPUMANTE GUATAMBU EXTRA BRUT BLANC DE BLANCS – RS, BRASIL
Esse é para quem ama espumante com perfil mais clássico e quer frescor certeiro no brinde. Extra brut, com borbulhas finas e acidez viva, tem equilíbrio e estrutura para acompanhar de aperitivos a pratos mais leves da ceia.

CRÉMANT DE BOURGOGNE MOILLARD – BORGONHA, FRANÇA
Esse é pra quem não abre mão de um bom clássico. Elegante, cremoso e refinado, com aquele charme francês que combina com frutos do mar, pratos especiais e o brinde da virada. Sofisticação na medida certa.

CAVA DON ROMÁN – PENEDÈS, ESPANHA
Esse é pra quem gosta de espumante direto, fresco e cheio de energia. Um cava espanhol versátil, com boa acidez e borbulhas vivas, que funciona muito bem com tapas, entradas, frutos do mar, peixes e petiscos da ceia. Um espumante prático e certeiro pra brindar e seguir a noite com leveza.

ESPUMANTE MESSIAS TINTO – BAIRRADA, PORTUGAL
Pra quem gosta de tinto, mas quer brindar com borbulhas. Um espumante feito de Baga e Touriga Nacional, fresco, gastronômico e cheio de personalidade, que acompanha muito bem carnes suínas, pernil, embutidos, aves mais estruturadas e pratos mais intensos da ceia. Uma escolha fora do óbvio, perfeita para surpreender na virada sem abrir mão do perfil de tinto.

ESPUMANTE AMITIÉ SUR LIE – SERRA GAÚCHA, RS, BRASIL
Esse é pra quem busca elegância na taça. Cremoso, gastronômico e com ótima acidez, funciona lindamente com peixes, frutos do mar e pratos delicados. Com notas de frutas tropicais, pão tostado e mel, é um espumante seguro pra quem quer acertar com classe.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

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Baianas como nunca vistas: livro-arte celebra símbolos, fé e ancestralidade da Bahia

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Publicação reúne 28 artistas em homenagem sensível e contemporânea à figura das baianas como ícone cultural da Bahia

A figura da baiana, com seus trajes de renda, colares de contas e presença altiva, ganha novas camadas de significado na obra Baianas – Rituais, Símbolos e Fé, lançada em Salvador na última quarta-feira (16).

O livro-arte é uma ode visual e conceitual a essa personagem-símbolo da Bahia, reunindo 28 artistas entre fotógrafos, ceramistas e artistas plásticos em uma construção coletiva que transborda fé, força e feminilidade.

Editada pela SobreGentes Editora, a obra tem curadoria tripla de Dan Maior (@danmaior), Reinaldo Giarola (@reinaldogiarola) e Celo Hermida (@celohermida), que conduzem o leitor por três eixos essenciais: rituais, símbolos e fé. Não se trata de uma representação literal, mas de um mergulho plural na baianidade como campo estético e espiritual.

Durante o lançamento — realizado em Salvador com a presença de artistas, curadores e convidados — o clima era de celebração e pertencimento. “É mais do que um livro. É um ato de reverência à ancestralidade que sustenta a cultura baiana”, comentou uma das participantes do evento.

Com tiragem limitada e sem fins lucrativos, Baianas – Rituais, Símbolos e Fé nasce também como plataforma de fortalecimento para o cenário artístico local. A iniciativa amplia a visibilidade de criadores da Bahia, promovendo encontros entre linguagens visuais e narrativas identitárias que, embora diversas, compartilham raízes comuns.

A publicação aponta ainda para um movimento editorial em expansão. Os idealizadores já planejam uma nova obra, ainda mantida sob sigilo, mas com a mesma proposta de valorizar símbolos vivos da cultura baiana por meio da arte.

Mais do que páginas ilustradas, Baianas é um relicário contemporâneo da fé que se veste de branco, carrega oferendas e dança ao som dos atabaques — um livro para ver, sentir e reverenciar.

Leia também: Vinhos de verão: quando a taça escuta o clima


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Vinhos de verão: quando a taça escuta o clima

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Vinhos de verão: beber o clima, escutar o corpo

Em Salvador, o verão não é apenas uma estação, é um modo de existir. O calor define os horários, os encontros, os pratos e, inevitavelmente, o que escolhemos colocar na taça. É nesse cenário que os vinhos de verão ganham outro sentido: não são apenas rótulos para beber gelados, mas escolhas que respeitam o corpo, o clima e o tempo.

Na coluna desta semana, Carol Souzah propõe uma escuta sensível da estação. Mais do que sugerir vinhos brancos, espumantes ou tintos leves, ela convida o leitor a repensar o porquê de ainda insistirmos em potências alcoólicas em pleno calor baiano. Com olhar crítico, toque de ironia e muita elegância sensorial, Carol desmonta mitos, provoca o paladar e revela como o preconceito contra vinhos leves — muitas vezes atravessado por machismo — nos afasta de experiências mais honestas e prazerosas.

Um texto que refresca ideias, inspira escolhas e reafirma: o bom vinho de verão é aquele que acolhe por dentro e refresca por fora.

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Vinhos de Verão

Vinhos de verão, quando a taça escuta o clima

Em Salvador, o verão dita o ritmo da vida. O calor molda os horários, os encontros, o jeito de ocupar a cidade e, inevitavelmente, o que colocamos na taça. Quando o vinho entende esse clima, entra nesse diálogo não como imposição, mas como extensão do ambiente, um vinho que refresca, acolhe e convida à permanência, sem excesso e sem esforço.

Para quem quer acertar no vinho de verão, algumas escolhas funcionam quase como um mapa seguro. Sauvignon Blanc seguem imbatíveis nesse clima, dos chilenos de regiões mais frias, como o Caliterra Reserva, aos rótulos vibrantes de Marlborough, na Nova Zelândia, como o Marlborough Sun Sauvignon Blanc, cheios de acidez, fruta fresca e aquela sensação quase elétrica que refresca imediatamente. Vale olhar também para os brasileiros, que têm surpreendido muito, especialmente nos espumantes, com rótulos precisos, leves e cheios de frescor. Um ótimo exemplo é o Espumante Bebber Nature, com 12 meses, elaborado a partir de Chardonnay e Riesling Itálico, um espumante brasileiro de acidez firme, aromas vibrantes e grande precisão. Chardonnay sem madeira, tanto do Chile quanto do Brasil, também funcionam muito bem com peixes, saladas e frutos do mar. Entre os rosés, os estilos mais claros e secos continuam sendo apostas certeiras. E nos tintos, a dica é escolher versões mais leves e pouco extraídas, como Pinot Noir, Garnacha ou Cinsault, inclusive brasileiros e chilenos, sempre com a possibilidade de servir levemente refrescados. São vinhos pensados para beber com prazer, sem esforço, respeitando o clima, o ritmo e a leveza que o verão pede em Salvador.

Trazer outras referências para Salvador deveria ser quase natural. Aqui, os vinhos mais frescos combinam com peixe grelhado, com uma moqueca mais leve, com petiscos de praia, com frutas e com mesas compartilhadas. Rosés claros e secos, espumantes brut ou nature entram com facilidade nesse cenário. Inclusive, um bom espumante brut ou até um vinho laranja conseguem dialogar muito bem com a moqueca e com o dendê, equilibrando gordura, intensidade e especiarias. Um exemplo interessante é o vinho laranja espanhol biodinâmico 20000 Léguas, que mostra como estrutura, textura e frescor podem caminhar juntos mesmo diante de pratos intensos. São vinhos que combinam com gelo no balde, com vinho na praia ou à beira da piscina, com roupa leve, corpo solto e a liberdade que o calor impõe, sem rigidez.

No entanto, confesso que existe algo que ainda observo bastante em Salvador, mesmo depois de todos os meus verões vividos aqui. Vejo muita gente insistindo em beber, nos dias mais ensolarados do ano, vinhos tintos super potentes, Malbecs, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot extremamente extraídos, alcoólicos, com longa passagem por barrica, como se o clima não tivesse mudado e o corpo não estivesse pedindo outra coisa. Existe uma certa resistência em aceitar que o vinho também acompanha a estação. Não digo para não beber esses vinhos durante o verão, mas ampliar as possibilidades nessa época do ano. Trocar um tinto pesado por um Pinot Noir bem feito, como o Bourgogne Origines do Albert Bichot, mais leve e fresco, não é perda de status nem de prazer, é inteligência sensorial. Já levei um Pinot para um jantar e ouvi, sem saberem que o vinho era meu, comentários do tipo “quem trouxe esse vinho ruim?” seguido de “só pode ter sido mulher”. Isso diz muito. O vinho leve ainda sofre preconceito, e muitas vezes esse preconceito vem carregado de machismo.

O vinho, muitas vezes, acaba sendo usado como um símbolo de afirmação, quase como uma extensão de status. Assim como carros e motos maiores, mais caros ou mais potentes, alguns homens recorrem a vinhos excessivamente fortes, alcoólicos e marcados pela madeira para reforçar uma ideia de poder, gosto e autoridade. Não por acaso, ainda existem homens que dizem entender de vinho, mas que só bebem tinto, como se limitar o repertório fosse sinal de conhecimento. Nesse jogo, a potência passa a ser confundida com valor, e tudo que é delicado, leve ou sutil acaba sendo desqualificado, não por falta de qualidade, mas por carregar um preconceito antigo e silencioso. Enquanto isso, seguem bebendo contra o clima, contra o corpo e contra a própria experiência que o verão poderia oferecer.

Talvez o maior aprendizado do verão seja esse: vinho não precisa ser denso para ser profundo, nem complexo para ser interessante. Às vezes, ele só precisa ser honesto, bem feito e refrescante. Um vinho que respeita o calor, o corpo e o tempo.

No fim das contas, escolher bons brancos, espumantes e rosés é um exercício de escuta. Escutar o clima, o corpo e o lugar. Salvador pede frescor, ritmo e menos peso, e o vinho, quando respeita essa lógica, se transforma em prazer verdadeiro. Porque no calor, o vinho bom é aquele que refresca por fora e acolhe por dentro.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

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Festival de Ostras na Pituba tem pizza de ostra, chef europeu e carta de vinhos exclusiva

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Segunda edição acontece entre os dias 17 e 19 de dezembro e traz novas receitas ousadas, carta de vinhos especial e participação do chef José Morchón

Entre os sabores do mar e a efervescência da alta criatividade gastronômica, o Proa Gastrôbar, na Pituba, prepara mais uma viagem sem escalas pelo universo das ostras. Após o sucesso retumbante da primeira edição, o Festival de Ostras retorna ao bar nos dias 17, 18 e 19 de dezembro, das 18h às 23h, com uma nova rodada de receitas autorais e uma participação internacional de peso: o chef espanhol José Morchón, do badalado restaurante La Taperia, se junta ao chef residente Ricardo Vallari nesta edição especial.

Ostras em versão crocante, tempurá e até pizza napolitana frita

Para quem acompanhou a estreia do festival de ostras, boas lembranças voltarão ao prato. Clássicos como a Ostra Crocante em Taco de Nori Desidratada com Gohan e Maionese de Wasabi e a Tempura de Ostra no Bao de Tahine Black e Kimchi estão de volta, atendendo a pedidos dos comensais mais fiéis.

Mas é nas novidades que o festival promete surpreender os paladares mais ousados. Entre as novas criações, destaca-se o poético Sonho de Ostra, que combina coalhada, pó de nori e katsuobushi em uma explosão de umami. Já a irreverente Pizza Napolitana Frita ganha recheio de ostras agridoces com conhaque, togarashi, aioli e coentro, misturando técnica, provocação e sabor em cada mordida.

Outra aposta que promete brilhar é o Trio de Ostras, apresentado em três variações: com molho de moqueca, azeite de coentro e um instigante chili oil de dedo de moça — uma verdadeira volta ao mundo em três ostras.

Vinhos especiais e cervejas artesanais direto da fonte

Ampliando a experiência sensorial, o festival contará com uma carta de vinhos exclusiva da Meus Vinhos, cuidadosamente selecionada para harmonizar com o menu. As sugestões dialogam com o frescor e a intensidade das ostras, criando pontes entre o Atlântico baiano e terroirs europeus. E, claro, não poderia faltar o toque da casa: as cervejas artesanais da Proa Cervejaria, servidas diretamente da fonte no Bar da Proa, garantem o equilíbrio ideal entre ousadia e tradição.

Durante os três dias do festival de ostras, o menu regular do Proa será suspenso, dando lugar apenas às criações pensadas para o evento. O endereço do sabor é o de sempre: Rua das Hortênsias, 288 – Pituba, Salvador.

Para quem busca mergulhar em um mar de sabores inusitados, essa é a rota certa.


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Puxadinho celebra 3 anos reafirmando sua alma boêmia na Pituba

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Três anos de porte fechando com chave de ouro

Em uma das ruas mais badaladas da Pituba, onde as luzes da noite se misturam com risos, música e aromas de coquetéis, o Puxadinho Restaurante comemora três anos de trajetória e de histórias vividas.

O Puxadinho vem se consolidando como ponto de encontro para quem busca uma experiência que vai além da mesa: uma celebração constante, com sabor, som e presença.

puxadinho ambiente
Puxadinho (Divulgação)

Luz, música e sabores: o DNA da casa

Com uma arquitetura intimista, marcada por iluminação suave e cantinhos que convidam ao diálogo, o ambiente do Puxadinho é pensado para acolher. A atmosfera recebe impulso extra com a coquetelaria autoral e uma seleção musical alinhada à proposta da casa: agora, de quinta a sábado, o projeto “Luz, Música & Sabores” convida o público a curtir noites vibrantes com shows da cantora Meggie Santos e sets dos DJs Mel Angelim e Santz. Uma mistura de house, boogie e brasilidades. O resultado? Uma energia pulsante e, ao mesmo tempo, acolhedora, ideal para encontros descontraídos ou celebrações intimistas.

Gastronomia contemporânea com alma afetiva

Na cozinha, o talento do chef Jamil Máximo guia um menu que transita entre influências nacionais e internacionais, sem perder o vínculo com sabores regionais e referências afetivas. Pratos bem apresentados e sabores criativos refletem uma gastronomia contemporânea, servida com atenção e proximidade. Fazem parte do time de idealizadores os sócios Thiago Hanna, Gustavo Nilo, Jonathan Café, Nuno Jr. e Henrique Almeida, que se esforçam para consolidar o Puxadinho como referência na vida noturna de Salvador.

Para Henrique, o segredo está em criar conexões reais. “Chegar aos três anos com uma casa cheia, um público fiel e noites que viraram ponto de encontro é motivo de orgulho. Queremos que as pessoas se sintam parte, que vivam momentos significativos. As melhores histórias nascem quando boa comida, boa música e boas companhias se encontram.”

Gastronomia do Puxadinho
Puxadinho comemora 3 anos (Divulgação)

Convite para mais histórias à mesa

Aberto de segunda a sábado, a partir das 18h, o Puxadinho segue de portas abertas para quem busca encontros especiais — seja para um jantar tranquilo, drinks no bar ou celebrações entre amigos. O convite está feito: viva Salvador com novos sabores, sons e memórias.


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Spaghetti com propósito: Mistura Contorno e Plan Brasil se unem no Dia de Doar

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Receita clássica, causa urgente: renda de prato icônico será revertida à proteção de meninas na Bahia

Dia de Doar inspira mais uma vez uma ação saborosa e solidária no coração de Salvador: pelo terceiro ano consecutivo, a ONG Plan Brasil, que combate ciclos de violência contra meninas, se une ao Restaurante Mistura Contorno para transformar um clássico da gastronomia em instrumento de mudança. No próximo dia 2 de dezembro, toda a renda obtida com o tradicional Spaghetti aos frutos do mar (R$ 116) será revertida para iniciativas de proteção à infância na Bahia.

Spaghetti aos frutos do mar, prato participante do Dia de Doar do Mistura Contorno
Spaghetti aos frutos do mar, prato participante do Dia de Doar do Mistura Contorno

Esta é a terceira edição da parceria entre o Mistura Contorno e a Plan Brasil. A escolha do prato não poderia ser mais simbólica: foi com ele que nasceu a história do restaurante, hoje um ícone da gastronomia soteropolitana, comandado pela chef Andréa Ribeiro. “É com muita alegria que participamos desta iniciativa, ajudando a fortalecer ainda mais a atuação da Plan Brasil na Bahia. Escolhemos um prato que simboliza nosso legado de mais de três décadas unindo sabores e memórias em Salvador”, destaca a chef.

chef andrea ribeiro mistura contorno
Chef Andréa Ribeiro (Divulgação)

Localizado em um dos cenários mais deslumbrantes da capital baiana, o Mistura Contorno é reconhecido por fundir o frescor dos mares com técnicas da cozinha mediterrânea e baiana. A união com a Plan Brasil reforça o compromisso do restaurante com ações sociais que fazem diferença concreta na vida de crianças e adolescentes.

Dia de Doar – Um gesto, muitas vidas

A Plan Brasil desenvolve, na Bahia, o projeto Escola de Liderança para Meninas, voltado a adolescentes de 13 a 19 anos. A proposta é clara: formar jovens líderes capazes de transformar suas realidades, enfrentando desigualdades e prevenindo violências de gênero. Com oficinas, debates e formação cidadã, as meninas também aprendem sobre saúde menstrual, direitos sexuais e reprodutivos.

“Cada gesto de solidariedade fortalece essa missão”, afirma Elaine Amazonas, gerente de projetos da Plan Brasil na Bahia. “O Dia de Doar mobiliza o mundo inteiro, e essa parceria com o Mistura Contorno amplia nosso alcance e potencial de transformação.”

Em tempos em que a solidariedade é um ingrediente essencial, iniciativas como essa mostram que gastronomia e consciência social podem — e devem — andar lado a lado. No próximo domingo, o convite é claro: saborear um clássico e transformar vidas.

mistura contorno
Mistura Contorno (Divulgação)

SERVIÇO

Restaurante Mistura Contorno – Dia de Doar
Onde: Avenida Contorno, Ladeira do Gabriel, 334 – Salvador
Contato: / Reservas: (71) 2132-8277
Quando: Ação válida em 02 de dezembro (domingo)
Prato Participante: Prato participante: Spaghetti aos frutos do mar (R$ 116,00)


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Emoriô: festa, música e caruru no Santo Antônio Além do Carmo

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Joca Mesa Bar celebra Santa Bárbara com caruru ancestral e festa Emoriô

Quando o dendê encontra o quiabo, a Bahia inteira sorri, e, no próximo dia 4 de dezembro o Joca Mesa Bar se prepara para transformar a tradição em celebração. Sob o signo de Dia de Santa Bárbara — orixá dos ventos e da tempestade, conhecida como Iansã — o bar-restaurant do chef Jota Moraes convida baianos e visitantes para um instante de memória, sabor e fé ancestral.

Joca Mesa Bar
Varanda do Joca Mesa Bar – Foto: Divulgação

Caruru com dendê, raízes e resistência

Desde as 12h de quinta-feira, o caldeirão do Joca Mesa Bar estará fumegando o tradicional caruru de quiabos: uma receita que atravessa gerações, feita com quiabo, azeite de dendê, camarão seco, amendoim, castanha e cebola. Quem chegar vestindo vermelho — cor querida de Iansã — recebe de presente uma caipirinha. Um gesto simbólico, um brinde de boas‑vindas.

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Chef Jota Moraes (Divulgação)

Emoriô: moda, música e ancestralidade

Mas a celebração não se encerra na quinta. No sábado (06/12), o Joca Mesa Bar abre as portas para a Emoriô — festa de estreia do Guia Rota Viva no bairro Santo Antônio Além do Carmo. Das 15h às 22h, a casa ganha vida com um encontro vibrante de música, moda, arte e gastronomia. A tradição nordestina contemporânea serve de pano de fundo para a celebração da cultura baiana.

emoriô
Emoriô (Divulgação)

A programação incluiu:

  • 16h: experiência sensorial da marca de autocuidado Sou Dumato, celebrando ancestralidade e beleza afro‑baiana
  • lançamento da nova coleção da grife Salcity Cria
  • ritmos intensos e envolventes com o cantor Vital — residente da festa — e dias com curadoria musical pelo DJ Namonster, com show especial de Mistro e Luan Costa

Na sexta-feira, o branco — cor associada à religiosidade afro — é o dress code simbólico. E o caruru de Santa Bárbara volta à mesa como carro‑chefe do cardápio.

Um roteiro de alma: Santo Antônio Além do Carmo ganha vida no Guia Rota Viva

O lançamento do Guia Rota Viva marca um momento de valorização dos espaços culturais e da gastronomia do bairro. O Joca Mesa Bar aparece entre bares, pousadas, ateliês, moda e galerias — como um dos destinos essenciais para quem deseja escutar, saborear e viver o Santo Antônio Além do Carmo com alma e sotaque.

Para quem quer se perder nas ruas de paralelepípedos e encontrar o dendê, o axé e o sabor da Bahia em um só lugar: a Rua Direita do Santo Antônio, 90, será destino e celebração.

“Mais do que servir comida — oferecemos ancestralidade em forma de prato, fé em cada colherada e a alegria de celebrar juntos.”

Venha de vermelho ou de branco. Mas venha. A festa já começa na primeira garfada.


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A taxa de rolha: ponte ou muro?

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A polêmica da rolha: liberdade de escolha ou desrespeito ao conceito da casa?

Em outubro de 2022, publicamos aqui no Muito Gourmet uma matéria sobre os restaurantes de Salvador que não cobravam taxa de rolha, e o conteúdo, como era de se esperar, gerou polêmica.

Afinal, rolha é sempre um tema que divide opiniões: de um lado, consumidores que desejam liberdade; do outro, casas que buscam sustentabilidade. Na época, listamos 16 estabelecimentos. Hoje, em novembro de 2025, quatro deles já não existem mais, ou seja, uma redução de 25%.

Passados três anos, o debate continua atual, mas ganha novas camadas. E quem retoma o assunto com profundidade e sensibilidade é nossa colunista Carol Souzah. Sommelière, jornalista e ex-proprietária do Terroir Bar de Vinhos, ela viveu o tema na prática, nos bastidores e na salão. Em sua nova coluna, Carol propõe um olhar mais amplo sobre o uso da taxa de rolha, questionando intenções, contextos e possibilidades de inclusão.

Mais que regra ou direito, rolha é também sinal de como consumimos, celebramos e nos relacionamos com os lugares que escolhemos frequentar. E talvez esteja aí a real provocação: o que estamos esquecendo nessa conversa?

Taxa de rolha, ponte ou muro?

Taxa de Rolha: o que estamos esquecendo nessa conversa?

A taxa de rolha sempre foi um tema delicado no mundo do vinho, polêmico mesmo, e por isso precisa ser discutido com honestidade. Acredito que ela tenha surgido para permitir que o cliente leve um vinho especial, algo que não está na carta da casa, uma garrafa rara, um presente afetivo, um rótulo escolhido com cuidado para um aniversário ou celebração. Não deveria funcionar como um passe para entrar no restaurante levando qualquer garrafa sem propósito.

Quando a taxa de rolha vira uma brecha para driblar o consumo no local, algo se perde. Perde a casa, que investe em equipe, treinamento, taças, adega e serviço para oferecer uma experiência. Perde o cliente, que acredita estar economizando enquanto fragiliza a sustentabilidade de um espaço que ele mesmo escolheu frequentar. Vinho é bebida, mas também é contexto, ambiente, hospitalidade e serviço.

E aqui entra algo que vivi de perto, um exemplo que mostra bem o mau uso da taxa de rolha. No Terroir Bar de Vinhos, que era um espaço totalmente dedicado ao vinho e especializado em oferecer rótulos diferentes, vinhos vivos, novos e curiosos, eu era frequentemente abordada por pessoas querendo levar suas próprias garrafas e pagar a taxa de rolha. Isso acontecia em um lugar cujo coração era justamente a experimentação e a descoberta. O negócio inteiro existia para que o cliente provasse vinhos que não encontrava em outros estabelecimentos de Salvador. Então como alguém chega a um bar de experimentação e deseja levar a própria garrafa? Ali, simplesmente não fazia sentido. A taxa de rolha precisa considerar o estilo da casa. Em um espaço que vive da venda de vinhos com curadoria específica, a lógica da rolha desmonta a essência do conceito.

Ao mesmo tempo, eu também reconheço um outro lado que precisa ser considerado. Há pessoas que não conseguem pagar os valores de uma carta de vinhos e recorrem à rolha para viver a experiência de estar naquele lugar. Gente que quer celebrar, compartilhar, participar, mesmo com um orçamento apertado. Levar uma garrafa mais simples ou que já tinham em casa pode ser a única forma de tornar aquele momento possível. E isso também é legítimo, humano e real.

O problema não é levar vinho. O problema é perder de vista o propósito. A taxa de rolha foi criada para equilibrar as contas de um restaurante que oferece serviço especializado, mas também pode ser uma ferramenta de inclusão quando usada com sensibilidade e respeito. O equilíbrio está em reconhecer que cada garrafa levada conta uma história diferente. Às vezes é uma história de afeto, às vezes é uma história de dificuldade, às vezes é só o desejo de brindar junto.

Talvez o que precise mudar não seja a taxa, mas o olhar. Lembrar que rolha não é atalho para conveniência, mas também não deve ser um muro que separa quem pode de quem não pode. É uma ponte. E toda ponte pode ser atravessada com consciência, respeito e propósito, sempre levando em conta o estilo de cada casa e a verdadeira intenção por trás de cada garrafa.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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