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Na Bahia, a Semana Santa tem dendê: chef Deliene Mota celebra a tradição que o bacalhau não alcança

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Vizinho ao epicentro espiritual de Salvador, o Encantos da Maré transforma a Sexta-feira Santa em ritual de ancestralidade, afeto e resistência à mesa

Enquanto boa parte do Brasil prepara o bacalhau como centro da mesa da Semana Santa, Salvador acorda com outro aroma. O cheiro que sobe das panelas soteropolitanas nesse dia é de dendê, de leite de coco apurando com camarão, de moqueca borbulhando em panela de barro. Não é acaso nem rebeldia: é herança.

Uma tradição que atravessou o Atlântico nas memórias de mulheres e homens africanos, encontrou os frutos do mar dos mangues e rios do Recôncavo e se tornou a identidade alimentar mais potente da Bahia.

A abstenção de carne vermelha, regra católica para a data, casou perfeitamente com uma cozinha que já tinha nos peixes, nos crustáceos e no azeite de dendê sua gramática própria.

Enquanto a tradição portuguesa trouxe o bacalhau como alimento nobre da Quaresma, os africanos escravizados no litoral baiano responderam com o que a terra e o mar ofereciam, criando uma culinária que não pedia permissão para existir.

É nesse cruzamento de fé, memória e resistência que a chef Deliene Mota encontra o sentido mais profundo do seu trabalho.

Um casarão na Colina Sagrada

Aos pés da Basílica do Senhor do Bonfim, na Cidade Baixa de Salvador, o Encantos da Maré completou sete anos em fevereiro de 2026. O restaurante ocupa um casarão histórico com vista para a Baía de Todos os Santos, daqueles que por séculos pertenceram às famílias brancas herdeiras do período colonial. Hoje, quem comanda a cozinha e o negócio é Deliene Mota: mulher negra, mãe, criada na Federação, em Salvador.

Ela sabe o peso simbólico desse endereço. “Estar num casarão de brancos, herdeiros portugueses, é de uma importância e responsabilidade muito grande”, diz Deliene, sem desviar o olhar. E completa, com a naturalidade de quem já mastigou esse assunto muitas vezes: “Como eles dizem: é uma afronta às tradições.”

Eles. A palavra fica no ar de propósito. Deliene não precisa nomear. Em uma cidade onde mais de 80% da população se declara negra ou parda, o racismo estrutural ainda dita quem deveria ocupar certos espaços e quem deveria servir neles. A chef não serve. Ela manda. E o que sai da sua cozinha não é só comida: é um ato cotidiano de ocupação.

deliene mota
Chef Deliene Mota – Foto: Divulgação

O cardápio afetivo de uma vida inteira

Quando perguntada sobre qual prato do Encantos da Maré representa a Semana Santa baiana, Deliene não hesita: moqueca de peixe, caruru, vatapá, feijão fradinho, arroz e farofa de dendê. Não é uma resposta de chef calculando impacto. É memória de infância.

Na minha infância, adolescência e até na minha vida adulta, sempre foi tradição na minha família“, conta. “É o verdadeiro cardápio afetivo da minha vida.”

A Sexta-feira Santa sempre foi sagrada na família de Deliene. Era o dia das mais velhas. A mãe e as tias assumiam a cozinha enquanto a família inteira se reunia na casa da matriarca, geralmente no interior do estado. As crianças circulavam entre os cômodos, o cheiro de dendê ocupava cada canto da casa, e a mesa era onde tudo convergia: fé e pertencimento.

“Até hoje esse dia tem um significado muito importante pra mim”, diz, com a voz de quem revisita o lugar toda vez que fala dele. “Um dia de saudade e boas lembranças.

É impossível separar essa memória do que o Encantos da Maré se tornou. A cozinha de Deliene não imita a tradição: ela é a tradição, filtrada por uma história pessoal e devolvida ao prato com consciência de quem sabe exatamente o que está fazendo e por quê.

Por que Salvador não é bacalhau

A explicação de Deliene para a diferença entre a mesa baiana e a do resto do Brasil é direta e sem romantização: ancestralidade e acesso.

A cultura do Recôncavo Baiano sempre foi a de utilizar os ingredientes da terra e do mar para colocar comida na mesa. O peixe fresco do litoral, o camarão, o dendê, o leite de coco, o feijão fradinho: tudo estava ali, disponível, enraizado na prática diária de cozinhar. O bacalhau, por outro lado, era (e em certa medida ainda é) um produto nobre, importado, ligado à herança portuguesa. Na Bahia, a tradição popular nunca dependeu dele.

Isso não significa que o bacalhau esteja ausente das mesas soteropolitanas. Está, e sempre esteve, em casas que mantiveram o vínculo com a culinária portuguesa. Mas o protagonismo, na maioria dos lares baianos, é do dendê. E é esse protagonismo que transforma a Sexta-feira Santa em Salvador numa experiência radicalmente diferente da que se vive em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais.

A própria Deliene, atenta à pluralidade dos seus clientes, incluiu no cardápio de Semana Santa do Encantos da Maré opções para quem quer sair do tradicional.

Semana Santa 2026 no Encantos da Maré

A expectativa para o feriado é alta. Deliene conta que a agenda de pedidos para encomendas já está quase esgotada, e que as compras de insumos foram antecipadas para dar conta da demanda. A organização é de quem já passou por sete Semanas Santas à frente do fogão profissional e sabe que esse é um dos períodos mais intensos do ano.

Num gesto que diz muito sobre a cultura do Encantos da Maré, a ceia da “família Encantos da Maré”, como Deliene chama sua equipe, será na Quinta-feira Santa. Na sexta, todo mundo estará a postos.

O restaurante abre mais cedo na Sexta-feira Santa, a partir das 10h. Reservas estão sendo aceitas para chegada até as 12h, e pedidos de encomenda podem ser feitos pelo WhatsApp.

Além do cardápio de sempre, com as Moquecas, o Terra e Mar, a Feijoada de Frutos do Mar e os pratos-âncora que fizeram a fama da casa, o menu especial inclui o escondidinho de bacalhau e o peixe assado com camarão e legumes salteados.

encantos da maré semana santa
Peixe Assado com Camarão e legumes salteados – Foto: Mirele Duarte

Mais que um restaurante, um lugar de pertencimento

O Encantos da Maré não é apenas um restaurante com boa vista e comida bem feita. É um lugar onde a Sexta-feira Santa ganha o sentido que sempre teve para Deliene e para milhões de famílias baianas: o de sentar junto, comer o que a terra e o mar deram, honrar quem veio antes e lembrar que a mesa é, talvez, o último espaço onde ninguém precisa pedir licença para existir.

Na Colina Sagrada, ao lado da Basílica do Bonfim, uma mulher negra da periferia de Salvador cozinha com dendê a memória de suas mais velhas. E nisso, sem manifesto nem panfleto, reescreve a história de quem pertence àquele casarão.

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Área externa do Encantos da Maré – Foto: Divulgação

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