O que você verá na matéria:
O gastrônomo e bartender baiano revela como identidade, cultura e território se traduzem em líquido, numa coluna que estreia no Muito Gourmet com a força de quem tem muito a dizer.
Um coquetel pode começar com uma fruta, um destilado, uma técnica. Pode começar com uma memória afetiva ou uma referência clássica. Mas, às vezes, ele começa com uma música.
É assim que Dan Morais, gastrônomo, mixologista e sommelier de cerveja soteropolitano, pensa coquetelaria: não como uma receita a ser montada, mas como uma experiência a ser construída. Uma linguagem. Uma forma de dizer de onde você vem, o que você carrega e o que quer comunicar antes mesmo de alguém tocar no copo.
Nesta coluna de estreia no Muito Gourmet, Dan abre o processo criativo por trás do drink que levou à segunda fase da Campari Bartender Competition 2026, as Jornadas Latinas, e entrega algo mais do que uma receita: entrega um método, uma visão de mundo e um manifesto sobre o que a coquetelaria baiana pode ser quando levada a sério.
O Que Vai Além do Copo
Quando falamos sobre coquetel, o famoso drink, geralmente pensamos naquela clássica cena: o bartender entregando a você um copo no balcão com um líquido bonito, uma decoração “fancy”, e que você bebe esperando um ótimo sabor.
Mas será que é só isso mesmo?
Me peguei divagando: o que vai além do copo? O que está por trás do líquido?
Por trás daquele copinho bonito com a guarnição legal, há muito mais: tem história, identidade, paixão e técnica.
Seja num bar, em eventos ou competições, a estrutura deve fazer sentido e os ingredientes devem apoiá-la.
Começo minha primeira coluna trazendo um exemplo de como é o processo criativo de um coquetel.
No meu caso, a resposta veio antes mesmo do primeiro ingrediente. Veio em forma de som.
Para a segunda fase da Campari Bartender Competition 2026 – Jornadas Latinas, eu não comecei pensando em receita. Comecei pensando em atmosfera. Em energia. Em algo que traduzisse o que eu queria dizer antes mesmo de alguém provar o drink. E foi assim que nasceu a música.
Logo veio à cabeça: o que melhor representa a identidade do povo baiano que está nas ruas é pagode baiano. Ele deveria vir não como trilha de fundo, mas como parte estrutural do projeto. Porque o conceito não era apenas criar um coquetel, era construir uma experiência. E, na América Latina, poucas coisas conectam tanto quanto música e futebol.
A partir daí, o caminho ficou claro: o drink precisava falar sobre o Bahia.
Não só o clube, mas tudo o que ele representa. O pré-jogo sob o sol de Salvador. A Fonte Nova pulsando. A rua, a resenha, o calor humano. O Bahia como símbolo de pertencimento. Como identidade. Como esse lugar onde muita gente se reconhece.
Então, junto com Havok (sim, o dono desse querido site pelo qual vos escrevo essa coluna), comecei o processo de composição da música que viria a ser homônima ao coquetel.
“COURO. TERRA. SANGUE.” surgiu da camisa do esquadrão homenageando o tetracampeonato do Nordestão, representando os bons momentos, a resiliência, a raça e o amor.
Não havia outra opção a não ser beber da fonte das versões internacionais em pagode, mais precisamente do que estava em voga no momento e fazia sentido: DtMF de Bad Bunny, que ganhou o mundo pela representatividade latina e virou um brado de resistência, tudo o que se encaixava na nossa história.
Os Ingredientes como Elos de Cultura e Território
Com esse universo definido, vieram os ingredientes.
Cada escolha foi pensada como um elo entre cultura, território e narrativa. Nada ali é decorativo.
Tudo comunica. O drink nasce dessa necessidade.
Não como uma receita pensada a partir de ingredientes, mas como uma tradução dessa experiência em outra linguagem.
Se a música organiza pelo som, o drink precisa organizar pelo paladar.
E aí entra o processo criativo de verdade.
O primeiro passo não foi escolher fruta, destilado ou técnica. Foi entender o que sustenta essa sensação. O que é estrutura ali dentro. O que é pulso, o que é base, o que é movimento.
O Campari aparece como eixo. Ele não entra só pela cor, embora ela carregue um simbolismo forte, mas principalmente pelo comportamento. É um amargor que sustenta, que permanece, que conduz o drink do início ao fim. Ele não se esconde. Ele marca presença, como o som contínuo da arquibancada.
A base do drink se constrói em outra camada.
A fava de aridã entra trazendo a força das matrizes africanas presentes na Bahia. O obi, a noz de cola, carrega um peso simbólico ancestral, de conexão, de energia, de ritual, assim como a torcida do esquadrão. São ingredientes que carregam história, ancestralidade e identidade. Eles não aparecem de forma óbvia no primeiro impacto, mas são fundamentais para dar estrutura. São o que mantém o drink em pé.
O maracujá entra como tensão. A acidez aqui não é só frescor, é equilíbrio dinâmico. É o que impede o excesso de peso, o que mantém tudo em movimento, o que conecta as camadas sem deixar que nenhuma domine completamente.
E a guarnição talvez seja o ponto mais visceral: carne de fumeiro de Maragogipe e geleia de maracujá do mato da Coopercuc, produzida pela agricultura familiar. Não só pelo sabor, mas pelo que ela representa. O Recôncavo, a tradição, o defumado, a cozinha de raiz, se unindo às mãos que colhem os frutos na caatinga e geram um produto que carrega a história de famílias e de todo um bioma. Um elemento que desloca o coquetel para um lugar muito específico, e, justamente por isso, muito potente. Ele muda a experiência. Introduz aroma, gordura, acidez, textura e cria uma interação que vai além do líquido. É o momento em que o drink sai do copo e ocupa o corpo.
A Técnica a Serviço da Ideia
A técnica acompanha essa construção.
A maceração sob pressão na Preshh, sistema brasileiro e único no mundo, diga-se de passagem, permite extrair com precisão aquilo que interessa de cada ingrediente. Reduz tempo, mas principalmente aumenta controle, padrão e precisão. Não é sobre acelerar o processo, é sobre chegar exatamente onde a ideia pede.
No fim, criar um drink não é sobre misturar ingredientes que funcionam bem juntos.
É sobre construir sentido.
A música organiza o sentimento.
O conceito organiza a ideia.
E o drink organiza a experiência.
Esse projeto é, ao mesmo tempo, sobre coquetelaria e sobre identidade.
Sobre entender que um drink pode, e talvez deva, ir além do copo. Que ele pode carregar território, memória e cultura. Que ele pode ser uma forma de dizer de onde você vem.
E, nesse caso, eu sabia exatamente o que queria dizer:
Que o Bahia é o mundo.
E que, de alguma forma, o mundo também passa pela Bahia.
Eu sou Dan Morais e esse é somente o início de uma coluna, onde teremos várias conversas: sobre identidade, coquetelaria, regionalidade e o que mais esse mundo fascinante das bebidas pode nos proporcionar.

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