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Restaurantes com vinho ou restaurantes com experiência de vinho?

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Introdução editorial

Cada vez mais restaurantes em Salvador incluem vinhos no cardápio. Mas entre ter vinho e oferecer uma experiência de vinho, existe uma diferença enorme.

Na nova coluna, Carol Souzah observa algo que se repete em muitas casas da cidade: cartas estáticas, rótulos que não mudam, equipes sem preparo e uma bebida que poderia ser protagonista acabando relegada a um canto do cardápio. A partir de uma conversa sincera com um restaurateur, ela mostra que o vinho não é apenas mais um item da operação… é estratégia de negócio, ferramenta de hospitalidade e um dos motores mais poderosos da experiência à mesa.

Porque quando o vinho passa a ser pensado de verdade, algo muda no restaurante inteiro.

Restaurantes com vinho ou restaurantes com experiência de vinho?

Quando o vinho vira estratégia, o restaurante muda

Outro dia, almoçando em um restaurante da cidade, acabei conversando com o dono sobre a venda de vinhos da casa. Curiosa que sou, a conversa naturalmente chegou aos rótulos, às possibilidades da carta e ao espaço que o vinho ocupa naquele restaurante. Eu queria entender como essa bebida, cada vez mais presente nas mesas, estava sendo pensada ali.

A resposta dele foi honesta.

Ele me disse que trabalha com o mesmo fornecedor desde que abriu o restaurante. Que sabe que poderia vender mais vinho. Que sabe que o público da casa tem perfil para isso. Mas que, no meio de tantas tarefas que um restaurante exige, o vinho sempre acaba ficando para depois.

Não era preguiça. Era falta de tempo.

Quem já esteve perto da rotina de um restaurante sabe como é. O dono resolve problema de fornecedor, acompanha cozinha, cuida de equipe, de caixa, de cliente, de manutenção, de estoque, de tudo ao mesmo tempo. Em muitos casos, ele também tenta cuidar do vinho.

Mas vinho também é um trabalho.

Montar uma carta coerente, escolher rótulos que conversem com o cardápio, preparar a equipe para sugerir uma garrafa com segurança, cuidar da temperatura de serviço, acompanhar o atendimento no salão, observar o giro das vendas e reavaliar os rótulos e a estratégia da carta de tempos em tempos. Nada disso acontece sozinho.

E quando ninguém cuida de verdade, o vinho vira apenas um item esquecido no cardápio.

Muitos restaurantes acabam resolvendo essa questão da forma mais prática possível: trabalhando com um único fornecedor. Para o dono da casa isso pode trazer conforto. Simplifica o pedido, reduz o tempo de negociação, organiza o estoque. Mas para quem frequenta o restaurante com frequência, o efeito pode ser outro.

Quando a carta de vinhos não muda, os rótulos acabam se repetindo. O cliente que gosta de vinho percebe rápido. Volta algumas vezes e encontra sempre as mesmas opções.

E, aos poucos, algo curioso começa a acontecer: as pessoas continuam indo ao restaurante porque gostam da comida, do ambiente, do serviço, mas passam a levar suas próprias garrafas para beber o que realmente querem.

A taxa de rolha vira então uma espécie de solução informal para um problema que poderia ser resolvido na própria carta.

Uma seleção mais pensada, com diversidade de estilos, regiões e faixas de preço, muitas vezes diminui até a necessidade da rolha. O cliente encontra ali mesmo algo que desperta curiosidade, algo que ele quer provar.

E a garrafa passa a fazer parte da experiência da casa.

O curioso é que muitos restaurantes ainda não percebem o quanto o vinho pode ser um dos maiores aliados de um negócio gastronômico. Se existe uma bebida capaz de alavancar vendas dentro de um restaurante, provavelmente é o vinho.

Diferente de muitas outras bebidas, o vinho é profundamente gastronômico. Ele pede comida, conversa com os pratos, prolonga o tempo da mesa. Quando uma garrafa é aberta, a dinâmica muda: a mesa pede mais água, os clientes ficam mais tempo, novos pratos aparecem, a presença se estende.

Em mesas maiores isso fica ainda mais evidente. Uma garrafa termina e, muitas vezes, outra é pedida naturalmente. O vinho cria ritmo na refeição e aumenta o consumo ao redor dele.

Ou seja, ele não vende apenas a si mesmo. Ele puxa o resto da experiência.

Além disso, uma boa carta de vinhos também constrói imagem. Restaurantes que cuidam do vinho começam a ser lembrados não apenas pela comida, mas também pela experiência da taça.

E o público de Salvador tem mudado.

Hoje há mais curiosidade, mais gente interessada em provar rótulos diferentes, mais clientes que perguntam sobre uvas, regiões, estilos. É um público que valoriza quando encontra alguém no salão que sabe orientar.

Ao mesmo tempo, existe uma frase que escuto com frequência quando converso com donos de restaurantes: a dificuldade de vender vinho. E quase sempre essa queixa vem acompanhada de outra, que também se repete muito pela cidade: a dificuldade de encontrar profissionais que saibam trabalhar com o serviço de vinho.

Mas a verdade é que essa realidade dificilmente vai mudar se cada casa não investir na formação das suas próprias equipes.

Nem todo restaurante precisa ter um sommelier em tempo integral. Mas toda casa que decide oferecer uma carta de vinhos precisa de alguém que pense essa carta, que a organize e que acompanhe a equipe no aprendizado. Para muitos profissionais de salão, o universo do vinho ainda é um território novo, cheio de nomes, regiões, estilos e formas de serviço que não se aprendem de um dia para o outro. É um conhecimento que se constrói com prática, repetição e acompanhamento ao longo do tempo.

Porque quando o vinho recebe atenção, algo muda na mesa.
A experiência melhora, o cliente percebe o cuidado e o restaurante descobre que aquela garrafa, que antes parecia difícil de vender, na verdade só estava esperando alguém apresentá-la direito.

Talvez o vinho nunca tenha sido difícil de vender. Talvez ele apenas tenha sido pouco cuidado. Em uma cidade onde a gastronomia cresce e o público se torna cada vez mais curioso, o vinho deixou de ser detalhe. Para muitos restaurantes, pode ser exatamente a peça que ainda falta para transformar uma boa casa em um lugar memorável.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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