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Espumantes: o vinho que marca o tempo

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Chega dezembro, e com ele o som mais simbólico da virada: o estouro da rolha. Mas, como nos lembra Carol Souzah, espumante não é só celebração é um gesto coletivo, ritual de passagem. Na última coluna de 2025, Carol reflete sobre o papel simbólico e sensorial dos espumantes, desconstrói preconceitos e traz recomendações certeiras para quem deseja brindar o ano novo com mais intenção e menos automatismo.

Em um texto que equilibra informação, poesia e crítica leve, ela mostra que espumante é, sim, vinho, e dos mais versáteis. Vai muito além da meia-noite e pode (e deve) estar à mesa, do primeiro petisco ao prato principal.

Entre brasileiros de respeito e clássicos franceses e ibéricos, Carol entrega uma curadoria afetiva e acessível, pensada para brindar com verdade. Porque a virada do ano merece mais do que apenas borbulhas. Merece propósito.

Espumantes: o vinho que marca o tempo

Existe um motivo pelo qual o espumante insiste em aparecer nos momentos de virada. Não é só pela festa, nem apenas pelas borbulhas. Espumante é vinho que marca o tempo. Ele anuncia começos, brinda amores, celebra novos ciclos, sela encontros e negócios. No Réveillon, mais do que uma bebida, ele se transforma em gesto simbólico de abertura de caminhos — quase um ritual coletivo de esperança e renovação.

Com isso tudo, acho curioso perceber como, mesmo tão presente, o espumante ainda é pouco compreendido. Para muita gente, ele segue restrito às festas, aos casamentos, ao brinde apressado da meia-noite ou à ideia de um vinho “leve demais” para acompanhar a comida. Nada poderia ser mais injusto com um dos estilos mais versáteis e gastronômicos do mundo do vinho. Já ouvi frases como “não gosto de espumante, só de vinho”, quando, na verdade, o espumante é vinho — com gás.

Esse gás pode surgir naturalmente durante o processo de elaboração ou ser preservado para manter frescor, vivacidade e a sensação de leveza na taça. Espumantes podem ser simples ou complexos, diretos ou profundos, e muitos deles têm estrutura, textura e enorme capacidade gastronômica, comparáveis — ou até superiores — a diversos vinhos sem borbulhas.

As borbulhas não estão ali apenas para fazer festa. Elas limpam o paladar, despertam a boca, equilibram gordura, realçam sabores. Por isso, espumantes funcionam tão bem com entradas, frituras, frutos do mar, pratos com acidez, molhos cítricos, queijos frescos e até carnes mais delicadas. Um bom espumante brut ou extra brut pode acompanhar uma ceia de Réveillon inteira, do primeiro petisco ao prato principal, com elegância e frescor.

Outro ponto importante é que espumante não é tudo igual. Método de produção, tempo de contato com as leveduras, uvas utilizadas e origem fazem toda a diferença no perfil do vinho. Um espumante feito pelo método tradicional — aquele mesmo do Champagne — tende a ser mais cremoso, complexo, com notas de pão, brioche e amêndoas. Já os ancestrais, os famosos pét-nat, costumam ser mais rústicos, vibrantes, espontâneos, com uma energia quase indomável. Ambos têm espaço na mesa. Tudo depende da proposta e do momento.

No Brasil, especialmente na Serra Gaúcha, temos espumantes de altíssima qualidade, com acidez natural, frescor e preços muito mais acessíveis do que muitos rótulos importados. Olhar para os espumantes nacionais no Réveillon é também um gesto de consciência, valorização do terroir e — por que não? — de surpresa positiva para os convidados.

E se existe uma dica de ouro para essa época do ano, ela é simples: escolha espumantes mais secos — brut, extra brut ou nature. Eles harmonizam melhor com a comida, cansam menos o paladar e permitem que o brinde se estenda para além da primeira taça.

Para quem ainda acredita que escolher um bom espumante para o Réveillon é questão de sorte ou de preço, fica o convite para olhar com mais atenção. Há espumantes para todos os bolsos, estilos e mesas — rótulos acessíveis e surpreendentes, outros mais sofisticados e cheios de camadas — todos capazes de acompanhar a virada do ano com personalidade e intenção.

A seguir, compartilho algumas dicas facilmente encontradas na internet e que podem elevar o seu Réveillon a um brinde verdadeiramente especial:

Sugestões para brindar com mais intenção

CASA VALDUGA ARTE BRUT ROSÉ – VALE DOS VINHEDOS, RS, BRASIL
Esse é o coringa da festa. Leve, fresco, democrático e com ótimo preço, agrada todo mundo na mesa. Ideal para brindar, acompanhar entradas e circular a noite inteira sem erro.

PÉT-NAT GLERA CASA VICCAS – SERAFINA CORRÊA, RS, BRASIL
Para aqueles que gostam de espumantes com alma e zero formalidade. Um pét-nat de Glera fresco, leve e cheio de energia, ótimo para abrir a noite, beber sem cerimônia ou acompanhar entradas, petiscos, antepastos e pratos leves. Borbulhas vivas, clima descontraído e aquele vinho que convida a brindar mais uma vez.

ESPUMANTE GUATAMBU EXTRA BRUT BLANC DE BLANCS – RS, BRASIL
Esse é para quem ama espumante com perfil mais clássico e quer frescor certeiro no brinde. Extra brut, com borbulhas finas e acidez viva, tem equilíbrio e estrutura para acompanhar de aperitivos a pratos mais leves da ceia.

CRÉMANT DE BOURGOGNE MOILLARD – BORGONHA, FRANÇA
Esse é pra quem não abre mão de um bom clássico. Elegante, cremoso e refinado, com aquele charme francês que combina com frutos do mar, pratos especiais e o brinde da virada. Sofisticação na medida certa.

CAVA DON ROMÁN – PENEDÈS, ESPANHA
Esse é pra quem gosta de espumante direto, fresco e cheio de energia. Um cava espanhol versátil, com boa acidez e borbulhas vivas, que funciona muito bem com tapas, entradas, frutos do mar, peixes e petiscos da ceia. Um espumante prático e certeiro pra brindar e seguir a noite com leveza.

ESPUMANTE MESSIAS TINTO – BAIRRADA, PORTUGAL
Pra quem gosta de tinto, mas quer brindar com borbulhas. Um espumante feito de Baga e Touriga Nacional, fresco, gastronômico e cheio de personalidade, que acompanha muito bem carnes suínas, pernil, embutidos, aves mais estruturadas e pratos mais intensos da ceia. Uma escolha fora do óbvio, perfeita para surpreender na virada sem abrir mão do perfil de tinto.

ESPUMANTE AMITIÉ SUR LIE – SERRA GAÚCHA, RS, BRASIL
Esse é pra quem busca elegância na taça. Cremoso, gastronômico e com ótima acidez, funciona lindamente com peixes, frutos do mar e pratos delicados. Com notas de frutas tropicais, pão tostado e mel, é um espumante seguro pra quem quer acertar com classe.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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