Premiada no Melhores da Taça 2026, a sommelière Carol Souzah revela o método por trás da carta do Silva Cozinha
Na noite de 14 de setembro, em São Paulo, a carta de vinhos do Silva Cozinha, restaurante do chef Ricardo Silva e da empresária Luciana Mastique, recebeu o Prêmio de Excelência do Melhores da Taça 2026, da revista Prazeres da Mesa.
Quem subiu ao palco para buscar a distinção foi a sommelière Carol Souzah, autora da carta e, para nosso orgulho, colunista quinzenal do Muito Gourmet. Numa edição em que Salvador também viu o Cork Wine Lab premiado pela carta de vinhos e o Purgatório Bar levar duas categorias, Carol usa este espaço para responder à pergunta que mais ouviu desde então: o que, afinal, faz uma carta merecer um prêmio?
Carta de vinhos não é lista: o que existe por trás de uma seleção premiada
Receber, em nome do Silva Cozinha, o Prêmio de Excelência pela carta de vinhos no Melhores da Taça foi uma alegria imensa, não apenas por reconhecer o trabalho de curadoria que realizei, mas também por colocar a carta do restaurante entre algumas das melhores do Brasil, ao lado de outras seleções de excelência de diferentes regiões do país. A premiação é realizada em São Paulo, e estar nesse palco representando Salvador tornou o momento ainda mais especial. Esse reconhecimento valoriza uma carta que construí com muita pesquisa, dedicação e liberdade criativa, e também o restaurante e a equipe que fazem essa experiência acontecer todos os dias.
E talvez por isso tenha sido tão emocionante para mim.
O Melhores da Taça, realizado pela Prazeres da Mesa, é a maior premiação de bebidas do Brasil. Fazer parte desse reconhecimento torna o momento ainda mais especial e reforça a importância de um trabalho que muitas vezes acontece longe dos holofotes, entre pesquisas, degustações, planilhas, conversas e escolhas cuidadosas.
Fazer cartas de vinhos é uma das partes do meu trabalho que mais amo. Existe pesquisa, técnica, estratégia, gastronomia e números, claro. Mas existe também uma enorme possibilidade de contar histórias. Uma boa carta diz muito sobre um restaurante antes mesmo de a primeira garrafa ser aberta.
Lista não é carta
Depois do reconhecimento, algumas pessoas me perguntaram: “Carol, como faço para o meu restaurante concorrer?”
Minha resposta começa por uma provocação: não basta ter bons vinhos.
Carta de vinhos não é escolher dois Sauvignon Blanc, três Chardonnay, alguns Malbec, Cabernet Sauvignon, um rosé, um espumante e considerar o trabalho encerrado.
Isso é uma lista. Carta é outra coisa.
Quando construí a carta do Silva, comecei pela identidade da casa e pela gastronomia contemporânea brasileira de Ricardo Silva, uma cozinha que considero especialmente rica, afetiva e cheia de possibilidades. Levei muito a sério a tarefa de criar uma carta que fizesse real sentido com tudo o que chega à mesa: os ingredientes, os sabores, as técnicas, a relação com Salvador e a maneira como o restaurante traduz o Brasil em sua cozinha. O vinho precisava conversar com os pratos, acompanhar essa experiência e valorizar a gastronomia que Ricardo construiu com tanta personalidade.
Uma carta para o calor de Salvador
Também levei em consideração o clima de Salvador. Uma carta construída aqui não pode ser pensada como se estivesse em uma região de clima frio, como a Serra Gaúcha, onde há naturalmente uma predominância maior de vinhos tintos. Em Salvador, os brancos, espumantes, champanhes e rosés ganham um destaque especial, porque combinam com o calor e com o perfil da cidade. São vinhos que acompanham bem a culinária local e a experiência de estar à mesa em Salvador.
A partir daí entram muitas camadas.
Penso em países, regiões, estilos, produtores e uvas, inclusive aquelas menos óbvias, capazes de despertar curiosidade. Penso em vinhos leves, estruturados, brancos de diferentes perfis, espumantes, rosés e em propostas que tragam diversidade de verdade.
Também considero fundamental abrir espaço para pequenos produtores, para vinhos de mínima intervenção e para diferentes formas de pensar a vitivinicultura. Uma carta contemporânea, para mim, precisa mostrar um pouco do que está acontecendo no mundo do vinho e não apenas repetir os rótulos que o consumidor encontra em qualquer lugar. Também não podemos nos fiar somente nos vinhos conhecidos, os famosos “vinhos que se vendem sozinhos”. Se eles não estiverem na carta, o cliente não necessariamente vai procurar outro restaurante; muitas vezes, vai pedir uma sugestão. E é justamente aí que a carta passa a oferecer a possibilidade de descobrir novas uvas e estilos, ampliando o repertório de quem está à mesa. Penso muito nisso ao fazer uma carta.
Preço, ordem e linguagem também vendem
Mas variedade sozinha também não resolve.
Existe estratégia de preço. É preciso criar diferentes portas de entrada para o cliente, pensar no ticket médio da casa e permitir que alguém encontre tanto uma garrafa mais acessível quanto uma experiência especial. Até a ordem em que os vinhos aparecem e a forma como os preços são distribuídos dentro de cada seção influenciam a escolha. Isso também é venda.
Existe ainda o posicionamento. A estética. A organização das categorias. A linguagem. A facilidade para o cliente se localizar. Uma carta pode ter vinhos incríveis e ainda assim ser confusa, intimidadora ou simplesmente não vender.
A carta precisa ter uma razão para existir
E existe uma coisa que considero essencial: identidade.
Quando centenas de cartas chegam para serem analisadas pela Prazeres da Mesa, elas não são submetidas a voto popular. O trabalho é feito por especialistas, que avaliam as seleções com critérios técnicos e editoriais, observando aspectos como diversidade, coerência, profundidade, identidade, relação com a gastronomia e a capacidade de a carta traduzir a proposta daquela casa. Por isso, não adianta apenas reproduzir o que todo mundo já está fazendo. É preciso fugir um pouco do óbvio, pesquisar, encontrar produtores interessantes, descobrir regiões e trazer rótulos que façam sentido para aquele restaurante. Não se trata de rejeitar produtores conhecidos, mas de não construir uma carta inteira no automático, repetindo sempre as mesmas escolhas.
A carta precisa ter uma razão para existir ali.
Inclusive, quando um restaurante inscreve sua carta no Melhores da Taça, envia também o cardápio. Isso diz muito. Não faz sentido avaliar o vinho separado da comida. A pergunta é: essa seleção conversa com a gastronomia dessa casa?
Para mim, esse é um dos princípios mais importantes de uma boa curadoria.
Hospitalidade fecha a conta
No Silva, tive algo precioso para realizar esse trabalho: liberdade criativa e confiança. Ricardo Silva, Luciana Mastique, Daniel e Mariana Braga me motivam a pesquisar, experimentar e propor caminhos, enquanto a equipe do restaurante dá vida a essa carta no salão e contribui diariamente para que a experiência aconteça com cuidado e personalidade. E isso faz diferença. Não existe curadoria autoral se toda escolha precisa caber apenas no território do que já é conhecido e seguro.
Talvez por isso esse reconhecimento tenha mexido tanto comigo. Ele valoriza algo em que acredito profundamente: vinho dentro de restaurante precisa ser pensado com a mesma seriedade com que se pensa a cozinha, o salão, a louça, o serviço e a experiência. E, sobretudo, a hospitalidade. Uma carta bem construída só cumpre seu papel quando encontra uma equipe bem treinada, capaz de ouvir o cliente, compreender suas preferências, apresentar as opções com segurança e fazer sugestões sem impor escolhas. O conhecimento técnico precisa caminhar junto com a atenção, a generosidade e a sensibilidade de quem recebe. No fim, é a equipe que transforma a carta em conversa, orientação e prazer à mesa.
E Salvador brilhou nessa edição. Ver nossa cidade aparecendo entre os reconhecidos me deixa especialmente feliz.
Uma carta de vinhos começa muito antes da escolha das garrafas. Começa na compreensão da casa, da cozinha, do público e da experiência que o restaurante deseja oferecer. Quando esses elementos estão claros, cada vinho encontra seu lugar, não apenas na carta, mas também à mesa e na história daquele restaurante.
Perguntas Frequentes
O que é o Melhores da Taça?
É a premiação anual da revista Prazeres da Mesa que reconhece as melhores cartas de vinhos, cervejas, coquetéis e bebidas sem álcool do Brasil, além de profissionais do setor. A edição 2026 teve cerimônia em 14 de setembro, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, durante o Salão Abrasel.
O que faz uma carta de vinhos ser premiada?
Segundo Carol Souzah, não basta reunir bons rótulos. Uma carta premiada precisa ter coerência com a cozinha da casa, diversidade real de estilos e produtores, estratégia de preço, organização clara e identidade própria. No Melhores da Taça, os restaurantes enviam também o cardápio, porque o vinho é avaliado em diálogo com a comida.
Quais vinhos combinam com o clima de Salvador?
Brancos, espumantes, champanhes e rosés ganham destaque em Salvador por acompanharem bem o calor e a culinária local. Uma carta pensada para a cidade não deve seguir a lógica de regiões frias, onde os tintos naturalmente predominam.
Onde fica o Silva Cozinha?
O Silva Cozinha, do chef Ricardo Silva, fica na Rua Chile, 7, no Centro Histórico de Salvador.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.

