O que você verá na matéria:
A nossa colunista Carol Souzah mostra que a paixão pelo vinho nasce de gente, não de manual.
Como começar a gostar de vinho? Essa é a pergunta que atravessa qualquer paixão: por onde ela realmente começa?
Para a sommelière Carol Souzah, colunista de vinhos do Muito Gourmet, a resposta não está em taças de cristal nem em manuais de enologia. Está nas pessoas que cruzaram seu caminho ao longo de mais de duas décadas: amigas, professores, produtores. Nesta edição da coluna, Carol revisita sua própria trajetória para responder a essa dúvida comum de quem se sente intimidado pela formalidade do tema. O relato é generoso, pessoal e cheio de nomes que, juntos, contam a história de como o vinho se tornou profissão, prazer e emoção constante.
O começo: Mônica, Letícia e a curiosidade sem regras
Outro dia, li uma frase que me fez parar por alguns minutos:
“Quase ninguém se apaixona por vinho lendo livro ou fazendo curso. Se apaixona observando alguém que já é apaixonado.”
Assim que terminei de ler, pensei em Mônica e Letícia. Se elas não tivessem cruzado o meu caminho, talvez a minha história com o vinho nem tivesse começado.
Durante muito tempo, o universo do vinho foi cercado por uma formalidade desnecessária. Parecia que, para beber uma taça, era preciso conhecer uvas, regiões, métodos de produção e uma infinidade de regras. Para quem está começando, isso costuma afastar muito mais do que aproximar.
Quando penso na minha própria história, percebo que aconteceu exatamente o contrário.
Foi bebendo vinho com minhas amigas Mônica e Letícia, há mais de vinte anos, que esse interesse começou a nascer. Elas já eram apaixonadas pela bebida. Eu não entendia absolutamente nada de vinho. Não sabia identificar uma uva, uma região ou um estilo. Mas foi ali que a curiosidade apareceu.
Os cursos, os mestres e a paixão por trás da técnica
Os cursos vieram anos depois. Vieram as degustações, as certificações e incontáveis horas de estudo. Ao longo desse caminho encontrei profissionais extremamente técnicos, com um conhecimento admirável. Mas encontrei, principalmente, pessoas que falavam de vinho com paixão.
O professor Alexandre Takei foi um deles. A técnica sempre esteve presente nas aulas, mas nunca veio desacompanhada de entusiasmo e paixão. Mais tarde, já trabalhando com vinho, continuei encontrando pessoas que reforçaram essa paixão. Paula Teothonio, cuja escrita sensível e atuação como sommelière nas vinícolas do Vale do Rio São Francisco sempre admirei, e as sommelières Patrícia Brentzel e Gabi Frizon também fizeram parte dessa construção. Tive o prazer de receber Patrícia e Gabi na Terroir para eventos de degustação, experiências que ampliaram ainda mais o meu olhar sobre o vinho e sobre as inúmeras formas de comunicá-lo.
Conhecer quem faz o vinho
Mas existiu um momento em que essa paixão ganhou outra dimensão. Foi quando deixei de conhecer apenas o vinho e passei a conhecer quem o faz.
Tive a sorte de viver isso algumas vezes. Conversar com Henrique Zanini, da Vinícola Era dos Ventos, com Boroto, da Família Boroto, com Sara e Vivi, da Casa Viccas e com Ivan Tisatto, da Dom Dionysius foi uma dessas experiências que transformam a gente. O que mais me marcou nunca foi uma ficha técnica. Foi a paixão com que cada um falava da própria história. A dedicação. A entrega. A generosidade em compartilhar conhecimento. Existe uma poesia muito bonita em quem faz vinho, e ela só aparece quando nos permitimos ouvir.

Rostos, não rótulos
Se hoje faço uma retrospectiva da minha caminhada no vinho, encontro muito mais rostos do que rótulos.
Eu me considero uma pessoa de muita sorte.
Pouca gente tem o privilégio de transformar uma paixão em profissão. Eu vivo do vinho. Escrevo sobre vinho. Ensino vinho. Viajo por causa do vinho. E, mesmo depois de tantos anos, continuo me emocionando. Me emociono quando encontro alguém que fala da bebida com brilho nos olhos. Me emociono quando percebo que uma pessoa acabou de descobrir um novo rótulo ou um novo estilo. E, principalmente, me emociono porque, todas as vezes que falo sobre vinho, sinto o mesmo encantamento que despertaram em mim lá no começo.
Fiquei pensando que talvez cada leitor também tenha uma história parecida. Talvez não seja com o vinho. Pode ser com a música, com a gastronomia, com a literatura ou com qualquer outra paixão que faça sentido na sua vida.
E quando olho para trás, o que mais me chama a atenção é que quase todas as lembranças importantes que tenho do vinho têm uma pessoa nelas.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.

