O que você verá na matéria:
Brenda Matos traça paralelo entre o cacau do Sul da Bahia e os cafés especiais do estado em reflexão de Páscoa
A Páscoa é, antes de tudo, uma celebração de origens. E quando o assunto é a Bahia, poucas origens são tão profundas quanto a do cacau cultivado sob as copas da Mata Atlântica e a do café colhido nos planaltos do interior.
Nesta edição especial da coluna de Brenda Matos, especialista de café e colunista do Muito Gourmet, a reflexão parte de memórias afetivas de Itabuna, atravessa o sistema agroflorestal da cabruca e desemboca em uma provocação certeira: chocolate bean to bar e café especial compartilham processos quase idênticos, e a Bahia é protagonista nas duas histórias.
Uma leitura para quem quer entender por que valorizar a rastreabilidade é, também, uma forma de celebrar a Páscoa.

Da Cabruca ao Café
Talvez muitos leitores desconheçam essa informação, mas a colunista que vos fala não é soteropolitana. Nasci em Itabuna e morei lá até os 24 anos. Vivia no bairro da Conceição, na última casa da rua e no último andar de um prédio de família. Se fechar bem os olhos, ainda lembro como se fosse hoje do cheiro de chocolate que invadia as noites da cidade.
Nos meus devaneios mais poéticos, eu pensava que uma cidade que cheira a chocolate nas madrugadas só poderia ser abençoada; tinha um “quê” de especial. Depois, os adultos me contaram que de místico não tinha muita coisa: aquele perfume se espalhava porque as fábricas de chocolate da região estavam a pleno vapor.
O fato é que, desde cedo, o cacau orbita a minha vida. Seja pelo peso histórico do Sul da Bahia, pelas madrugadas achocolatadas ou pelo tempo em que estudei na UESC, cujo campus fica em Ilhéus e, sem coincidência nenhuma, em uma área de Cabruca: sistema onde o cacaueiro cresce à sombra das árvores nativas da Mata Atlântica.
Presenciar tão de perto a cultura do cacau me ensinou que o que vem da terra carrega uma identidade profunda. Aprendi que a qualidade de um fruto é indissociável da preservação e do respeito ao tempo da natureza.
O Valor do que é Nosso
A Páscoa é uma celebração de renovação. E nada é mais renovador para o nosso mercado do que valorizar a rastreabilidade. Assim como no café especial, o chocolate de qualidade nos exige conhecer o caminho do quem-como-de-onde.
É fascinante perceber hoje, trabalhando com café, como ele e o chocolate Bean to Bar (do grão à barra) compartilham jornadas quase idênticas. Ambos são frutos que dependem de um terroir específico, de processos de fermentação e secagem controlados, de uma torra precisa e, acima de tudo, de mãos que conhecem a história por trás de cada semente.
Sair de Itabuna e percorrer o caminho até o universo dos cafés especiais me ensinou que a excelência pode até ser uma linguagem universal, mas é o que é local que faz a vida ganhar sabor de forma única.
Quando harmonizamos um chocolate de origem Sul-Baiana com um café especial da Chapada Diamantina ou do Planalto Baiano, não estamos falando apenas de sensorial, estamos falando da mais alta qualidade e alquimia entre territórios. É a Bahia manifestando sua pluralidade sensorial em dois dos produtos mais complexos do mundo.
Que o seu domingo seja assim: com aroma de café fresquinho e o gosto inconfundível do nosso chocolate de origem.
Feliz Páscoa!

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