Entre o estande e as salas de degustação, nossa colunista conseguiu fazer quatro das nove masterclasses do festival. Um espumante da Casa Pedrucci, uma Rebo 2022 e o universo de Jerez ficaram na memória.
A coluna de hoje chega um dia depois do Dia Nacional do Sommelier, celebrado em 29 de agosto, e a coincidência não poderia ser melhor. Sommelier é quem dá palavra ao vinho, essa coisa que carrega safra, região, decisão humana e memória, mas não fala sozinha. Alguém precisa traduzir. Na Bahia, onde o sol é forte e a cerveja é gelada, esse trabalho tem sido feito com uma teimosia bonita, por profissionais que formam paladar, ajustam temperatura de serviço, montam cartas autorais e despertam paixões novas pelo líquido dionisíaco em quem só conhecia o vinho do churrasco de domingo. A todos eles, o nosso brinde.
E à Carol Souzah, que faz as duas coisas ao mesmo tempo: serve e escreve. No Wine Brasil Music, ela esteve em duas funções, jornalista especializada em vinhos e sommelière em serviço no estande, com nove masterclasses acontecendo ao redor e um dia inteiro que ainda era o do próprio aniversário. Conseguiu participar de quatro. É sobre elas, e sobre as taças que ficaram na memória, que ela escreve agora.
Entre uma taça e outra, as masterclasses do Wine Brasil Music
O Wine Brasil Music teve uma programação que, para quem trabalha com vinho, era daquelas difíceis de administrar. Nove masterclasses, três dias de evento, grandes nomes do vinho brasileiro e internacional e uma seleção de rótulos que passava por diferentes regiões, estilos e momentos da história do vinho.
Eu estava ali em duas funções: como jornalista especializada em vinhos e como gerente comercial e sommelier da Meus Vinhos, distribuidora que atua na Bahia com os vinhos da importadora Del Maipo. O estande da Del Maipo também fazia parte da feira e, entre receber pessoas, apresentar vinhos e trabalhar, eu tentava escapar para as salas de degustação sempre que conseguia.
Não deu para fazer todas as nove disponíveis durante o evento. A masterclass de “Vinho de garagem, 35 anos depois”, que estava entre as que eu mais queria, acabou ficando de fora. E o dia 21 ainda tinha um pequeno detalhe: era meu aniversário. Precisei me dividir entre celebrar, trabalhar e tentar acompanhar a programação. Foi o dia em que menos consegui sair do estande, e Bordeaux e a tão esperada aula de vinhos de garagem ficaram para outra oportunidade.
Ainda assim, consegui participar de quatro masterclasses. E algumas taças ficaram especialmente na memória.
Espumantes do Brasil, com Gilberto Pedrucci
Tenho Gilberto Pedrucci como um dos grandes nomes da história dos espumantes brasileiros, então essa era uma aula que eu queria muito fazer.
Sua trajetória passa por casas importantes da nossa vitivinicultura. Foi presidente da Associação Brasileira de Enologia, trabalhou por mais de 20 anos na Peterlongo, passou pela Cavigase, foi Enólogo do Ano em 2005 e hoje está à frente da Casa Pedrucci.
Ouvi-lo falar de espumantes é ouvir alguém cuja própria trajetória se mistura à evolução dessa categoria no Brasil.
A degustação passou por Peterlongo Privilege Rosé Brut 18 meses, Vaccaro Nature Sur Lie, Casa Pedrucci Millésime Brut, Courmayeur Moscatel Brut, Ponto Nero Celebration Prosecco, Garibaldi VG Nature Blanc de Blanc e Chandon Blanc de Noir Extra Brut.
E havia uma bela diversidade de estilos, métodos e uvas. Inclusive um Charmat longo tão bem feito que, na degustação, houve quem pensasse que fosse um espumante de método tradicional. Um bom lembrete de que o método, sozinho, não determina a qualidade.
Garibaldi também não poderia ficar de fora dessa conversa. A região é fundamental para a história dos espumantes brasileiros e ajudou a construir a identidade que hoje associamos à Serra Gaúcha.
Mas o vinho que mais me marcou foi o Casa Pedrucci Millésime Brut.
Foi um dos melhores espumantes brasileiros que já bebi. Complexo, preciso e, principalmente, muito persistente. Você toma o gole e o vinho continua. O retrogosto volta, permanece, insiste. É aquele final longo que faz a gente demorar um pouco antes de pensar na próxima taça.
Foi uma das grandes surpresas do festival para mim.
Vinhos de altitude de Santa Catarina
A masterclass com Everson Fernando Suzin e Sergio Bruxo foi uma das surpresas do festival. E também foi um prazer especial conhecer Sérgio Bruxo mais de perto e ouvi-lo falar sobre vinhos e sobre a região.
A degustação passou por Montepulciano 2022, Rebo 2022, Petit Verdot 2021, Malbec 2021, Cabernet Sauvignon 2021, Rosé Suzin 2022 e Sauvignon Blanc Suzin 2023.
O que me interessa nos vinhos de altitude é justamente a possibilidade de construir vinhos com boa acidez, frescor e identidade, explorando variedades que nem sempre associamos ao Brasil.
E aqui preciso falar da Rebo. É uma uva com a qual tenho uma história de muitas degustações e que sempre me desperta curiosidade. Quem frequentou o Terroir provavelmente já bebeu alguns vinhos dessa uva comigo, porque sempre gostei muito de trabalhar com ela e colocá-la na taça de quem passava por lá.
Por isso, encontrar a Rebo 2022 nessa seleção foi uma surpresa especialmente boa. Gostei muito do vinho, da maneira como a safra se apresentou e da personalidade que mostrou na taça. Foi, para mim, um dos preferidos dessa masterclass.
Montepulciano também chamou atenção pela personalidade, enquanto Cabernet Sauvignon e Malbec mostraram como castas internacionais podem ganhar outra leitura em altitude.
Foi uma degustação surpreendente, daquelas que deixam vontade de continuar acompanhando o que essas regiões ainda têm para mostrar.
Uruguai, Canelones e Castillo Viejo
Também fiz questão de participar da masterclass com Alejandro Etcheverry porque gosto muito dos vinhos uruguaios e, especialmente, do que Canelones tem mostrado.
A seleção foi de Blanc de Blanc 2025, Sauvignon Blanc 2025, Tannat Varietal 2024, Vieja Parcela 2023, Cabernet Sauvignon Reserva 2024, Reserva da Família 2023, Gran Tannat 2020 e El Preciado 2022.
Canelones me interessa pela combinação de frescor, acidez e expressão de terroir. E por mostrar que o Uruguai não começa e termina no Tannat.
Nos brancos, especialmente, aparece esse lado mais vibrante e fresco. Nos tintos, o Tannat pode ganhar elegância e equilíbrio sem perder sua identidade.
É um Uruguai que vale a pena beber com mais atenção.
Jerez, um vinho com 3.000 anos de história
Essa era a masterclass que eu mais aguardava.
Sou apaixonada por Jerez e a aula com Arthur Azevedo foi exatamente o que eu esperava: conhecimento, história e muita paixão pelo assunto.
Arthur é um showman. Fala de Jerez com domínio técnico, mas também com humor e entusiasmo, o que faz toda a diferença quando se entra em um universo tão particular. Em um dos momentos da aula, ele lembrou uma famosa passagem de Shakespeare sobre o Jerez, e aquilo me pareceu fazer todo sentido.
Na taça, Barbadillo Pale Cream Sherry, Oloroso, Manzanilla de Sanlúcar de Barrameda, Fino, Pedro Ximénez, Solear Manzanilla e Eva Cream.
Foi uma pequena viagem pelos diferentes estilos de Jerez. A crianza biológica, a flor, a salinidade da Manzanilla, a amplitude do Oloroso, a delicadeza do Fino e, depois, os vinhos doces, com a concentração impressionante do Pedro Ximénez.
E aqui faço uma confissão: meus favoritos continuam sendo a Manzanilla e o Oloroso. São estilos muito diferentes entre si, mas que me encantam justamente por aquilo que Jerez tem de mais particular. A Manzanilla pela delicadeza, pelo frescor e aquela sensação quase salgada que parece trazer Sanlúcar para dentro da taça. O Oloroso pelo outro extremo, mais amplo, profundo e cheio de camadas.
Mas o que mais ficou comigo foi a maneira como Arthur contou essa história.
Jerez é daqueles vinhos que ficam ainda mais interessantes quanto mais a gente entende sobre eles. E, depois dessa aula, fiquei com ainda mais vontade de continuar bebendo, estudando e descobrindo esse universo.
Para quem gosta de vinho, fica a dica: na próxima edição, vale olhar com atenção a programação das masterclasses antes de chegar ao festival. O Wine Brasil Music não acontece apenas na feira, na música e na gastronomia. Durante os dias do evento, essas degustações técnicas trazem conteúdo, histórias e a oportunidade de ouvir profissionais que dificilmente estariam reunidos em uma mesma programação.
Para mim, foram uma das partes mais enriquecedoras do festival.
E, entre tudo o que consegui provar, algumas taças ficaram especialmente na memória.
O Millésime da Casa Pedrucci foi uma delas.
A Rebo 2022 foi outra.
E Jerez, claro, ficou em uma categoria própria.
Durante a masterclass, Arthur Azevedo lembrou um dos muitos momentos em que o vinho de Jerez atravessou a história e chegou até a literatura. Shakespeare, pela voz de Falstaff, dizia que o Jerez “aquece o sangue e ilumina o espírito”.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.

