O que você verá na matéria:
A sommelière Carol Souzah revela os estilos de vinhos brancos que entregam mais do que prometem, e por que a textura é o segredo que poucos percebem.
A sommelier Carol Souzah tem uma forma muito específica de escolher vinho branco: pela sensação que ele deixa na boca, não pelo rótulo. Nesta coluna, ela apresenta três uvas e estilos que, segundo sua experiência de taça, cruzam uma fronteira curiosa: chegam com uma elegância que faz as pessoas imaginarem um preço mais alto. E é justamente essa capacidade de surpreender que os torna indicações certas, sem medo e sem hesitação.

3 Vinhos Brancos que Parecem Caros (e Muitas Vezes Não São)
Hoje eu quero falar de três vinhos brancos que parecem caros, mas nem sempre são.
Na verdade, três uvas e estilos que costumam entregar mais do que prometem. Aqueles vinhos que chegam na taça com uma certa elegância, despertam curiosidade, e fazem alguém perguntar o preço já imaginando algo mais alto.
Com o tempo, eu fui entendendo que essa sensação não está só na uva ou na origem. Está, principalmente, na textura. No jeito que o vinho se comporta na boca, na acidez, no equilíbrio, na forma como ele se sustenta depois do gole.
E é a partir disso que eu escolhi esses três caminhos.
Chardonnay: o estilo que faz minha alma vibrar (e não é o mais óbvio)
Existe um estilo muito conhecido, bastante buscado, que é o Chardonnay com passagem por barrica. A madeira traz notas de baunilha, manteiga, tostado, além de mais corpo e volume. É um perfil associado à elegância, justamente por essa construção mais intensa.
É um estilo com proposta mais estruturada, tem seu público e, aqui em Salvador, agrada bastante.
Quem me conhece e já dividiu algumas taças comigo sabe: não é o Chardonnay que faz minha alma vibrar.
Salvo raras exceções, quando a madeira aparece mais integrada e o vinho foge daquele padrão mais óbvio, especialmente o estilo clássico californiano, como os da Robert Mondavi Winery, que para mim acabam sendo um desprazer. Eu prefiro quando o Chardonnay segue por outro caminho.
Os que me encantam são mais frescos, com acidez vibrante, pouca ou nenhuma madeira e uma pegada mineral mais evidente. A textura aqui muda completamente. Fica mais crocante, mais tensa, quase elétrica. É um vinho que não pesa, não cansa, e justamente por isso transmite uma sofisticação mais sutil.
E muitas vezes é essa precisão que faz ele parecer mais caro.
Alvarinho: elegância que o tempo só melhora
A segunda indicação é a Alvarinho, especialmente em Portugal.
É uma uva que consegue ser aromática sem exagero. Tem fruta, tem frescor, às vezes um toque floral, mas sempre com uma acidez firme que sustenta tudo. Na boca, costuma ter uma textura muito elegante, ocupa espaço com delicadeza, sem pesar.
E tem um detalhe que eu gosto muito de trazer: o Alvarinho pode envelhecer, se forem feitos pra isso, é claro.
Enquanto muitos vinhos verdes são feitos para serem consumidos jovens, mais leves e imediatos, o Alvarinho, principalmente os de Monção e Melgaço, vai na direção oposta. Com o tempo, ganha corpo, complexidade, profundidade, sem perder totalmente a acidez que dá vida ao vinho.
Isso muda a percepção. Ele deixa de ser só fresco e passa a ser interessante.
Chenin Blanc sul-africano: a maior surpresa em custo-benefício
A terceira indicação é a Chenin Blanc da África do Sul.
Essa, para mim, é uma das maiores surpresas quando a gente fala em custo-benefício. A acidez é alta, vibrante, e isso define tudo.
Na boca, muitos têm aquela textura crocante, quase como morder uma maçã verde. Faz salivar, limpa o paladar, dá vontade de continuar bebendo. Ao mesmo tempo, alguns conseguem trazer um pouco mais de volume, sem perder essa energia.
Esse equilíbrio entre frescor e estrutura cria uma sensação de profundidade que engana fácil. Parece mais caro do que é.
O que conecta os três
No fim, o que conecta esses três estilos de vinho branco não é a uva ou o país.
É a sensação. A crocância da acidez, a salinidade da mineralidade, a precisão de um vinho que está no lugar certo. Nada sobra, nada pesa.
Só pra constar, vinho branco é minha preferência, eu bebo muito vinho branco, de diversas uvas. Essas que trouxe hoje como indicação são apenas 3 das escolhas que fazem parte da minha rotina, do que eu peço, do que eu indico e do que eu gosto de dividir à mesa.
São uvas mais fáceis de encontrar, de bom custo-benefício, e justamente por isso fazem tanto sentido. Nem sempre a gente precisa buscar o diferente, às vezes o que está mais perto já entrega tudo. Boas escolhas e bons brindes.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.
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