O que você verá na matéria:
A sommelière baiana inicia em Paris um diário de viagem pela cena dos vinhos naturais de baixa intervenção, com escala em Gaillac, a região que sobreviveu à padronização do mercado.
Existe uma França do vinho que raramente aparece nos roteiros oficiais. Não é a dos châteaux monumentais, nem a das grandes maisons de Champagne, nem a dos rótulos cotados em leilão. É uma França mais silenciosa, feita de pequenos produtores de vinhos naturais que voltaram a fermentar com leveduras nativas, reduziram o uso de enxofre e reaprenderam a confiar no tempo. É também a França que Carol Souzah, sommelière e colunista do Muito Gourmet, decidiu atravessar nesta viagem que começa em Paris e segue rumo a Gaillac, no sudoeste do país.
A escolha do destino diz muito sobre o momento da cena natural francesa. Enquanto Borgonha e Bordeaux seguem disputando manchetes e preços, regiões como Gaillac vêm preservando algo que o mercado massivo perdeu: identidade. É essa cena que Carol acompanha de perto, em uma viagem que mistura curadoria, afeto e o reencontro com vinhos que passaram pelo seu antigo bar no Brasil sem nunca terem sido visitados na origem. A coluna que você lê a seguir é a primeira de uma série, e abre com uma cena parisiense que sintetiza, em poucas linhas, o que torna a relação dos franceses com o vinho tão particular.
Paris bebe diferente
Pensei nisso quase imediatamente ao entrar no Septime La Cave. Quando cheguei, o bar ainda estava relativamente vazio. Garrafas abertas ocupavam o balcão inteiro, os vinhos eram servidos nas pequenas taças ISO, aquelas clássicas de degustação, e os garçons falavam dos produtores com uma intimidade muito natural, como quem comenta amigos antigos. Pouco tempo depois, o espaço começou a lotar. As mesinhas e lugares disponíveis se ocuparam rapidamente e uma fila de pessoas passou a beber vinho em pé na porta, conversando entre taças e garrafas compartilhadas, como se aquela movimentação já fizesse parte da paisagem cotidiana da cidade.
Nada ali parecia preocupado em transformar o vinho em objeto de reverência. E pra mim é justamente isso que torna essa cena tão interessante.
O vinho como parte da vida, não como ritual
Em uma das mesas, um casal dividia uma garrafa enquanto uma criança pequena desenhava ao lado. Observei a maneira como conversavam com os garçons, a naturalidade da cena, a ausência completa daquela ideia de que vinho precisa ser um ritual formal. O vinho ali parecia ocupar o mesmo lugar que o pão, o café ou o jantar de terça-feira. Parte da vida.
Como sommelière, me interessa muito perceber como os franceses, especialmente dentro da cena dos vinhos naturais, conseguem manter essa relação cotidiana com o vinho mesmo quando falam de fermentações espontâneas, mínima intervenção e vinhos que muitas vezes fogem completamente dos padrões mais clássicos e previsíveis de aroma, textura e estrutura.
Gaillac, a próxima parada
Existe também uma camada pessoal nessa viagem. Nos próximos dias, seguimos para Gaillac, no sudoeste da França, uma região que há algum tempo desperta minha curiosidade. E talvez tudo isso fique ainda mais especial porque faço essa viagem ao lado de duas grandes amigas que tenho na vida, o que transforma essa experiência em algo ainda mais simbólico e afetivo para mim.
Já provei vinhos de Gaillac em degustações, alguns inclusive passaram pela curadoria do meu antigo bar de vinhos no Brasil, mas nunca imaginei que pisaria naquele território. Curiosamente, é uma região que não ocupou muito espaço na minha formação mais tradicional sobre vinhos franceses, talvez por isso exista ainda mais encanto em finalmente conhecê-la diretamente de sua origem.
Quando se fala em França, quase sempre as atenções recaem sobre Borgonha, Bordeaux, Champagne ou Rhône. Gaillac permanece um pouco à margem dos grandes holofotes, e talvez justamente por isso tenha preservado algo extremamente interessante: uma cena de pequenos produtores mais livres, experimentais e profundamente conectados ao território.
A região é uma das mais antigas da França em produção vitícola, com registros que remontam ao período romano, mas hoje chama atenção por outra razão. Muitos produtores locais vêm apostando em agricultura orgânica, biodinâmica e vinificações de mínima intervenção, trabalhando com fermentações espontâneas, pouco uso de enxofre e variedades autóctones que sobreviveram ao tempo e à padronização do mercado.
O que os vinhos naturais franceses estão me ensinando
Até agora, uma das coisas que mais tem me chamado atenção é como muitos dos vinhos que provei aqui desmontam uma ideia ainda bastante comum sobre os vinhos naturais. Existe um imaginário de que todo vinho natural será excessivamente ácido, oxidado, turvo demais ou marcado por aromas muito extremos de fermentação, estábulo, cidra ou kombucha. Claro que essa estética mais “funk” existe e também ocupa seu espaço dentro do movimento, mas o que encontrei até agora foram, principalmente, vinhos leves, frescos, equilibrados, cheios de fruta e com uma pureza muito bonita.
Talvez justamente por isso a cena dos vinhos naturais franceses me pareça tão interessante: ela não gira em torno de um único estilo. Existe diversidade, intenção e, acima de tudo, uma busca muito honesta por identidade.
Existe algo que me atrai muito nesse tipo de vinho: a sensação de que cada garrafa carrega menos maquiagem e mais terroir.
Nosso roteiro passa também por Cordes-sur-Ciel, Albi e produtores artesanais como Domaine Vins Antonin. Quero entender como essas pessoas vivem, cultivam e pensam o vinho em um momento em que muitas vinícolas na França parece revisitar sua própria tradição através de uma geração menos interessada em rigidez e mais preocupada com identidade.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.
