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Muito além da taça: os sabores, negócios e caminhos que movimentaram a ProWine 2026

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Sommelière Carol Souzah percorre a ProWine São Paulo e encontra um Brasil que deixou de ser só consumidor de vinho

A ProWine 2026 em São Paulo, encerrada em 8 de outubro, chegou à sétima edição com números de feira grande: dois pavilhões do Expo Center Norte ocupados pela primeira vez e mais de 2 mil produtores de 43 países. Entre eles estava a baiana UVVA, de Mucugê, na Chapada Diamantina, que levou à feira um Chardonnay elaborado com leveduras nativas. A sommelière Carol Souzah, colunista quinzenal do Muito Gourmet, circulou pelos corredores e voltou com uma leitura que vai além da taça: o Brasil deixou de ser apenas mercado e passou a disputar protagonismo no mapa mundial do vinho. Do branco japonês ao vinho de ânfora da Vidigueira, ela conta o que viu.

Muito além da taça: os sabores, negócios e caminhos que movimentaram a ProWine 2026

É impossível circular pelos corredores da ProWine São Paulo e não perceber que alguma coisa está mudando no mercado brasileiro de vinhos. E não falo apenas da quantidade de rótulos disponíveis para degustação. Falo dos estandes movimentados, das conversas em diferentes idiomas, da presença de novos produtores e, principalmente, de um Brasil que começa a ocupar um lugar cada vez mais importante no mapa mundial do vinho.

Estive na edição de 2026, realizada entre os dias 6 e 8 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo, a convite da Del Maipo Wines. Foram dias de muitas degustações, encontros e descobertas, mas também de observação. Afinal, uma feira desse porte diz muito sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro do setor.

De Provino a dois pavilhões

Para entender a dimensão desse crescimento, vale olhar um pouco para trás. A ProWine São Paulo nasceu em 2019, inicialmente com o nome Provino, inspirada na tradicional ProWein de Düsseldorf, na Alemanha. Desde então, ganhou musculatura. Em 2022, recebeu mais de 8 mil profissionais. Em 2024, foram 15 mil visitantes. Em 2025, ultrapassou a marca de 20 mil, reunindo mais de 1.500 marcas de 36 países.

Em 2026, a ProWine São Paulo chegou à sua sétima edição em uma dimensão inédita. Pela primeira vez, ocupou dois pavilhões do Expo Center Norte, reunindo, segundo os números anunciados pela organização, mais de 2 mil produtores de 43 países. Uma expansão que impressiona, especialmente quando lembramos que, poucos anos atrás, a feira ainda dava seus primeiros passos no Brasil.

E esse crescimento não acontece por acaso. Ele acompanha o interesse cada vez maior do mercado internacional pelo consumidor brasileiro, que vem ampliando seu repertório e descobrindo novas formas de apreciar o vinho. Em 2025, o setor movimentou R$ 21,1 bilhões, segundo dados divulgados pela organização do evento. Há também um consumidor mais curioso, interessado em novas uvas, regiões pouco conhecidas e estilos que fogem dos tradicionais tintos encorpados.

O Brasil deixa de ser só consumidor

Mas uma das cenas que mais me chamaram a atenção nesta edição foi a força da presença brasileira. E aqui faço questão de destacar: não estou falando apenas das grandes importadoras, mas de vinícolas nacionais apresentando seus próprios vinhos, terroirs e histórias.

Entre os nomes presentes estavam Miolo, Casa Valduga, Aurora, Pizzato e UVVA, esta última, da nossa Chapada Diamantina, na Bahia, com um estande lindíssimo, que chamava a atenção pela beleza e pela identidade. Foi especialmente prazeroso ver uma vinícola baiana ocupando esse espaço de destaque em uma feira internacional.

Estandes movimentados, rótulos cada vez mais interessantes e uma diversidade de regiões produtoras que confirma o amadurecimento da nossa vitivinicultura. O vinho brasileiro já não pode ser resumido aos espumantes da Serra Gaúcha, por mais importantes e excelentes que sejam. Hoje, temos produções relevantes em diferentes estados, novos terroirs sendo explorados e produtores que apostam em identidade, pesquisa e inovação.

E há um dado especialmente significativo: segundo a organização, pelo segundo ano consecutivo, o Brasil foi o país com o maior número de estandes na feira. Isso diz muito sobre o momento que estamos vivendo. Nossa produção não está apenas crescendo, está ganhando confiança, visibilidade e reconhecimento. O Brasil já não ocupa somente o lugar de consumidor nesse grande encontro mundial do vinho. É também protagonista.

Do Japão, uma surpresa na taça

E por falar em outros países, uma das minhas descobertas mais curiosas veio do Japão. Sim, vinho japonês! Entre tantas regiões tradicionais, encontrei uma produção que ainda é pouco conhecida do público brasileiro. Provei um branco que me agradou especialmente e me fez lembrar por que gosto tanto desse universo: sempre existe algo novo para descobrir.

O Japão vem desenvolvendo uma vitivinicultura bastante particular, com castas como a Koshu, conhecida por produzir brancos delicados, além de investir em variedades internacionais e em vinhos de mínima intervenção. É fascinante perceber como países que raramente associamos ao vinho estão construindo suas próprias expressões.

Uma feira que virou experiência

Outra percepção que trouxe desta edição é que a ProWine deixou de ser apenas um grande espaço de exposição e negociação. Continua sendo uma feira essencialmente profissional, claro, mas hoje proporciona uma experiência muito mais completa.

Há espaços de gastronomia, encontros, degustações especiais, aulas, conversas com produtores e oportunidades de aprendizado que ultrapassam a simples apresentação comercial de um rótulo. E isso faz toda a diferença. O vinho ganha valor quando conhecemos sua origem, entendemos suas escolhas de produção e encontramos as pessoas que estão por trás da garrafa.

Um bom exemplo foi o estande da Del Maipo Wines, com uma estrutura de dois andares. No piso principal, um grande espaço dedicado às degustações e ao relacionamento com clientes e profissionais. No andar superior, uma programação de masterclasses e degustações conduzidas por enólogos e representantes de vinícolas durante os três dias de evento.

Essa aproximação entre quem produz e quem vende é fundamental. Afinal, nosso trabalho não é apenas apresentar vinhos, mas transmitir conhecimento, despertar interesse e construir uma relação entre o consumidor e aquilo que está na taça.

Ânfora, uma técnica que atravessa séculos

Entre os vinhos que mais me surpreenderam nesta edição, merece destaque um branco português da Vidigueira, elaborado em ânfora. Uma experiência especialmente interessante pela utilização de uma técnica ancestral de vinificação, que atravessa séculos e continua encontrando espaço entre produtores contemporâneos.

O que fica depois da ProWine

Voltei da ProWine com a impressão de que o mercado brasileiro está vivendo uma transformação importante. Há mais diversidade, produtores nacionais ganhando visibilidade e profissionais cada vez mais interessados em conhecimento. Ainda temos desafios, sobretudo quando falamos em tornar o vinho mais acessível e presente na vida dos brasileiros. Mas é impossível ignorar o quanto já avançamos.

Talvez o que mais me entusiasme em uma feira como essa seja justamente perceber que o vinho continua em movimento. Novas regiões aparecem, técnicas antigas são revisitadas, estilos ganham espaço e novas histórias chegam às nossas taças.

E, para quem trabalha com vinho, poucas coisas são tão estimulantes quanto descobrir que, mesmo depois de tantas garrafas abertas, ainda existe um mundo inteiro por conhecer.


Perguntas Frequentes

Quando aconteceu a ProWine São Paulo 2026?

A ProWine São Paulo 2026 aconteceu de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo. Foi a sétima edição da feira, a primeira a ocupar dois pavilhões, com mais de 2 mil produtores de 43 países. O evento é voltado exclusivamente a profissionais do setor.

Quais vinícolas brasileiras participaram da ProWine 2026?

Entre as vinícolas nacionais presentes estavam Miolo, Casa Valduga, Aurora, Pizzato e a baiana UVVA, de Mucugê, na Chapada Diamantina. A UVVA apresentou na feira uma nova versão do seu Chardonnay Microlote, elaborado com leveduras nativas.

Existe vinho produzido no Japão?

Sim. O Japão tem uma vitivinicultura própria e ainda pouco conhecida no Brasil, com destaque para a casta Koshu, que origina brancos delicados. O país também cultiva variedades internacionais e produz vinhos de mínima intervenção.

O que é vinho de ânfora?

É o vinho fermentado em grandes recipientes de barro, técnica milenar que voltou a interessar produtores contemporâneos. No Alentejo, em Portugal, onde fica a Vidigueira, essa tradição é conhecida como vinho de talha.

por carol

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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