O que você verá na matéria:
- Premiadas, pesquisadoras e autorais, mulheres da coquetelaria nordestina mostram que a região não precisa pedir licença para ocupar o centro da cena.
- O Nordeste Não Deve Nada a Ninguém: elas já fazem história na coquetelaria brasileira
- Maria Bento: da terra para o copo, de verdade
- Thalita Cacho: o Tropicália que foi ao mundo
- Sol Cerqueira: Salvador em dendê, sal e pertencimento
- Heloísa Carli: o sertão como potência criativa
- Biruta da Terra: a primeira mulher a vencer a Campari
- Vitória Olivier: a cena cearense que cresce com voz própria
- O que une e o que multiplica
Premiadas, pesquisadoras e autorais, mulheres da coquetelaria nordestina mostram que a região não precisa pedir licença para ocupar o centro da cena.
A coquetelaria nordestina tem nome, tem técnica, tem território e tem reconhecimento. Nesta coluna, o gastrônomo, mixologista e sommelier de cervejas Dan Morais apresenta seis mulheres que constroem, a partir do Nordeste, uma das narrativas mais relevantes da coquetelaria brasileira contemporânea: da pesquisa botânica com PANCs à vitória em campeonato mundial, do sertão de Feira de Santana à final da Campari Bartender Competition. Um retrato necessário de uma cena que não pede validação externa porque já provou, no copo e na raça, que técnica e território não são opostos.
O Nordeste Não Deve Nada a Ninguém: elas já fazem história na coquetelaria brasileira
Por muito tempo, a coquetelaria brasileira foi narrada a partir dos mesmos centros, dos mesmos balcões e dos mesmos sotaques. Como se inovação, técnica e reconhecimento precisassem sempre sair do eixo. Como se o Nordeste coubesse apenas no lugar do exótico, do regional, do “ingrediente curioso”. Mas há uma cena viva, madura e relevante acontecendo aqui. E, em boa parte, ela tem nome de mulher.
Falar delas não é abordar o tema como “promessa”: é trajetória, prêmio, pesquisa, formação, autoria e reconhecimento. É falar de mulheres que já marcaram (e seguem marcando) a coquetelaria brasileira com repertório técnico, identidade própria e uma relação profunda com território.
Maria Bento: da terra para o copo, de verdade
Maria Bento é uma dessas referências incontornáveis. Antes de “território” virar palavrinha bonita pra aumentar preço de cardápio e o ingrediente regional virar tendência pra criar storytelling de competição, Maria já olhava para a terra como fonte de criação. Formada em Gastronomia e atualmente graduanda em Agricultura Urbana e Sustentabilidade Alimentar, ela consolida sua pesquisa no PANCQUINTAL, um laboratório vivo de biodiversidade que sustenta o conceito “Da Terra para o Copo”, o qual realmente vive e respira desde sua infância.
No PANCQUINTAL, Maria cultiva e estuda Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), resgatando sabores da Caatinga e da Mata Atlântica que muitas vezes passam longe dos menus tradicionais. Moringa, jamelão, chanana e casca de jatobá deixam de ser elementos silvestres ou periféricos para se tornarem a base de uma coquetelaria autoral, ética e territorial. Em seu trabalho, sustentabilidade não aparece como discurso de mercado, mas como prática cotidiana: manejo, reaproveitamento, cultivo, muita pesquisa e escuta da planta.
Como diz nossa rainha das PANCs: “Não se trata apenas de criar um drink, mas de entender o ciclo de vida do ingrediente. O PANCQUINTAL é onde a hospitalidade encontra a regeneração ambiental e o resgate da nossa flora”. Maria não apenas fala da terra para o povo: ela transforma a terra em pensamento líquido.

Thalita Cacho: o Tropicália que foi ao mundo
Thalita Cacho levou essa força para o mundo. Potiguar, com atuação em Recife, tornou-se campeã mundial do Licor 43 Bartenders & Baristas Challenge 2021 com o coquetel Tropicália, uma criação que une café, maracujá, manjericão e narrativa cultural brasileira.
Essa conquista não pode ser lida apenas como um prêmio individual: em uma competição internacional que cruza café e coquetelaria, ela apresentou um coquetel com técnica, equilíbrio e identidade. O nome Tropicália não surgiu por acaso: evoca um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil e transforma essa referência em sabor, aroma e discurso.
Sua vitória mostrou que uma bartender nordestina podia ocupar o topo de uma disputa mundial sem abrir mão de brasilidade, sotaque e origem: foi justamente essa leitura cultural que deu força ao coquetel. Sommelière de Cervejas, educadora e mixologista, ela representa uma geração que entende que competir também é contar uma história e que o Nordeste tem histórias suficientes para ocupar qualquer palco.

Sol Cerqueira: Salvador em dendê, sal e pertencimento
Sol Cerqueira é a representação da nova geração que entende o coquetel como território em movimento. Sócia proprietária da VDC Produções e embaixadora de diversas marcas, colocou a Bahia em evidência na Campari Bartender Competition 2025 com o Sotero, drink que traduz Salvador em dendê, sal, folha, memória, rua e pertencimento.
Ao longo da carreira, participou de competições regionais e nacionais, conquistando reconhecimento por criatividade, identidade e inovação. Foi campeã do 2º Concurso Regional de Rabo de Galo Bahia, em 2023, campeã do Enchefs Coquetelaria Fortaleza 2024, semifinalista da Monin Cup 2024, recebeu menção honrosa por regionalidade e inovação no Campari Bartender Competition 2024, foi Top 10 no CBC 2025, Top 100 no CBC 2026 e influencer oficial da competição por dois anos consecutivos.
Mas a importância de Sol vai além da lista de premiações. Sua atuação fortalece a presença feminina atrás do balcão, amplia a visibilidade da coquetelaria baiana e mostra que Salvador não é apenas conversa pra vender drink. Em sua trajetória, a Bahia aparece como linguagem viva: no ingrediente, na hospitalidade, na cena local, nas marcas que representa e nas experiências que constrói dentro e fora do estado.

Heloísa Carli: o sertão como potência criativa
Em Feira de Santana, Heloísa Carli amplia esse mapa a partir do sertão. Pesquisadora, fazedora de coquetéis e fundadora da Tchim-Tchim Coquetelaria de Origem, ela constrói um trabalho atravessado pela agricultura familiar, pelos saberes populares e por ingredientes como umbu, licuri, rapadura, ervas e frutas regionais.
Sua pesquisa entende a coquetelaria sertaneja como uma manifestação artística contemporânea. Não se trata apenas de usar ingredientes do interior, mas de criar uma linguagem capaz de comunicar cultura, identidade e pertencimento através de sabores, aromas e processos artesanais. Foi isso que a levou aos 10 finalistas da Campari Bartender Competition 2026.
Ao defender uma coquetelaria de origem, Helô desloca o sertão do lugar de escassez para o de potência criativa, cultural e gastronômica. Cada coquetel se torna uma narrativa sensorial, onde pequenos produtores, tecnologias populares, memória afetiva e cadeias locais também entram no copo. No trabalho dela, origem não é limite, é força.

Biruta da Terra: a primeira mulher a vencer a Campari
Biruta da Terra (ou para os íntimos, Letícia) é outro nome fundamental nessa virada. Com uma coquetelaria marcada por brasilidade, cultura popular, pesquisa de ingredientes e identidade regional, tornou-se a primeira mulher vencedora da Campari Bartender Competition.
Sua trajetória mostra que regionalidade não é ornamento. Não é decoração de taça. É estrutura criativa, técnica e política. Biruta trabalha o Brasil a partir de dentro, com atenção aos biomas, aos saberes populares, às plantas, aos rituais e às muitas formas de beber e contar histórias neste país.
Ao vencer uma das principais competições de coquetelaria do Brasil, ela não apenas conquistou um título. Ela ajudou a reposicionar o olhar sobre o que pode ser considerado relevante, técnico e contemporâneo. Biruta prova que o regional, quando tratado com profundidade, não diminui em nada a criação, mas amplia horizontes.

Vitória Olivier: a cena cearense que cresce com voz própria
Do Ceará, Vitória Olivier também fortalece essa cartografia. Mixologista, chefe de bar e nome ativo da cena de Fortaleza, ela vem construindo uma trajetória ligada à criação autoral, às competições e à formação de uma coquetelaria contemporânea no estado.
Vitória representa uma cena cearense que cresce com personalidade própria, conectando técnica, hospitalidade e identidade local. Sua presença em disputas nacionais e em casas relevantes reforça que o Nordeste não é uma cena única, nem uma estética fechada. É múltiplo: tem litoral, sertão, capital, interior, técnica clássica, ingrediente popular, alta coquetelaria e balcão de verdade.

O que une e o que multiplica
O que une essas mulheres não é um estilo único. Cada uma aponta para um Nordeste diferente. Há quem venha da pesquisa botânica, do café, do sertão, da cena urbana, dos campeonatos, da agricultura familiar, do bar autoral ou dos saberes populares. Mas todas desmontam a mesma ideia antiga: a de que a coquetelaria nordestina precisa ser validada por fora para existir.
Não precisa: ela já existe, já venceu! Formou gente, criou repertório, levou nome nordestino para campeonato nacional e internacional. Já provou, no copo e na raça, que técnica e território não são opostos.
Essas mulheres não estão pedindo espaço.
Elas já ocupam.
Cabe ao Brasil olhar com a seriedade que elas merecem.

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