De redes de frango frito a popstars, o vinho sai do pedestal e circula onde as pessoas estão
Sim, o KFC e o vinho se encontraram, e não foi uma vez só. No Japão, a rede fez uma parceria com a importadora Enoteca para indicar rótulos que combinam com o frango da casa, entre eles um Pinot Noir argentino. Em Londres, montou um bar temporário com vinho e balde de frango na mesma mesa. A sommelière Carol Souzah, colunista do Muito Gourmet, olhou para o episódio e viu menos uma piada de marketing e mais um sintoma: o vinho está deixando o pedestal e ocupando lugares, marcas e universos que até pouco tempo pareciam distantes dele. A seguir, a leitura dela sobre esse movimento e sobre o que muda quando a taça troca de endereço.
Frango frito KFC com Pinot Noir. Há alguns anos, talvez essa combinação parecesse uma provocação feita apenas para chamar atenção. Hoje, ela diz bastante sobre o momento que o vinho está vivendo.
KFC com Pinot Noir: por que todo mundo quer um pedaço do mundo do vinho
No Japão, o KFC se uniu à Enoteca para apresentar combinações entre produtos da rede e diferentes rótulos. Entre elas, estava a sugestão de servir o tradicional frango da marca com um Pinot Noir argentino. Segundo o comunicado do KFC Japão, a iniciativa retomava uma experiência anterior realizada no fim de 2025.
Em Londres, o KFC também promoveu uma experiência temporária, um bar chamado Coq au Vin, em parceria com a marca francesa La Vieille Ferme, conhecida nas redes como “chicken wine” por causa do galo e da galinha estampados no rótulo. Não se tratava da abertura de um bar permanente, mas de uma ação promocional de curta duração.
O mais interessante nessa história, para mim, nem é decidir se frango frito combina ou não com Pinot Noir. Mas, já que chegamos até aqui, faço uma ressalva.
Antes de pedir a garrafa, algumas perguntas
Antes que alguém ache que estou recomendando a harmonização, calma. Ela pode funcionar, sim, mas eu faria algumas perguntas antes de pedir a garrafa: que Pinot é esse? Como esse frango foi temperado? Tem molho? É mais picante, mais gorduroso? Harmonização depende muito desses detalhes. Então não digo que não funciona, apenas não seria uma combinação que eu escolheria no automático.
Só que esta coluna nem é sobre harmonização. O que me chamou atenção foi outra coisa: o vinho está cada vez mais presente em lugares, marcas e universos que antes pareciam muito distantes dele.
Snoop Dogg, Kylie Minogue, Jay-Z e o vinho como território de marca
E o KFC não está sozinho.
Em 2020, o Snoop Dogg entrou no mercado de vinhos com a 19 Crimes. Kylie Minogue transformou seu nome em uma marca que já vendeu milhões de garrafas. Jay-Z se associou ao Champagne Armand de Brignac.
Música, entretenimento, luxo, fast-food. O vinho circulando por todos esses lugares.
Os códigos continuam, a cerimônia é que afrouxou
Os códigos continuam existindo. A taça certa, a comida certa, a temperatura certa, o vocabulário certo. Tudo isso faz parte da técnica e ainda tem seu lugar. O que parece estar mudando é a seriedade com que a bebida precisa ser tratada o tempo todo. O problema não está na técnica, mas em transformá-la em uma barreira. Nem sempre o vinho precisa de uma cerimônia inteira para ser consumido. Em países onde faz parte do cotidiano, como a França, ele também é tratado como alimento: está presente nas refeições, sem que isso signifique servi-lo sempre na temperatura exata ou em uma taça de cristal. É simplesmente parte da vida.
O mercado mudou, e o consumidor também.
Hoje, o vinho disputa espaço com coquetéis, cervejas artesanais, bebidas prontas, produtos sem álcool e muitas outras opções. Precisa encontrar novas ocasiões de consumo e também novas formas de conversar com quem talvez nunca tenha se sentido convidado para esse universo.
Tirar a taça das mãos dos deuses gregos
É por isso que essas aproximações me interessam, porque sempre gostei da ideia de tornar o vinho uma bebida democrática e baseei meu trabalho como sommelière justamente nessa tentativa. Gosto de pensar em tirar a taça das mãos dos deuses gregos e colocá-la nas mãos de pessoas comuns, de todas as origens étnicas e também de diferentes condições financeiras.
Quando uma rede de frango frito fala de Pinot Noir, quando um rapper como Snoop Dogg lança uma marca de vinho ou quando uma cantora transforma seu nome em rótulo, existe marketing, obviamente. Mas existe também uma mudança de simbologia para muita gente que nunca viu o vinho como algo possível de consumir e entender.
O vinho deixa de aparecer apenas em restaurantes sofisticados, adegas especializadas e mesas mais formais e começa a circular por outros ambientes, outras linguagens e outras referências. Mesmo quando ainda está associado ao luxo, ele passa a ser apresentado por pessoas e culturas que ampliam a ideia de quem pode ocupar esse espaço.
Da alta gastronomia ao boteco
Isso não significa abrir mão de técnica, de qualidade ou de critério.
Significa apenas entender que uma garrafa não precisa esperar uma ocasião especial.
Vinho pode estar na alta gastronomia, no hambúrguer, na comida de rua ou num boteco como o Pirambeira, em Salvador, que mantém uma carta de vinhos para quem prefere uma taça à cerveja ou ao drink. E pode, claro, estar em casa numa terça-feira qualquer.
Talvez por isso tantas marcas e personalidades estejam olhando para esse mercado.
O vinho ainda carrega história, luxo, cultura e desejo, mas também começa a estar onde as pessoas estão.


Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.

