Pablo Miranda Roger conduz cinco etapas com rótulos ibéricos no dia 10 de agosto, no Centro Histórico de Salvador
O jantar harmonizado que o Silva Cozinha promove em Salvador no dia 10 de agosto, segunda-feira, às 19h30, tem uma particularidade que o separa da maioria das degustações da cidade: quem vai conduzir a noite não é apenas um especialista convidado, é o próprio produtor de dois dos cinco rótulos servidos. Pablo Miranda Roger, consultor de projetos vitivinícolas, especialista em enomarketing e sócio-fundador da Bodega Requiem Hispania, em Ribera del Duero, comanda um percurso de cinco etapas na Rua Chile, no Centro Histórico. O investimento é de R$420 por pessoa.
Quem senta à cabeceira da mesa
A distinção importa mais do que parece. Jantares harmonizados costumam ser conduzidos por sommeliers ou representantes comerciais que apresentam rótulos de terceiros. Aqui, a lógica se inverte em pelo menos dois momentos da noite.
Pablo Miranda Roger toca, ao lado de Adolfo González, a Requiem Hispania, projeto nascido em Peñafiel sob o conceito de “vinho de garagem”, com tempranillo (tinto fino) colhido em vinhedos que passam dos 80 anos e fermentações espontâneas, sem leveduras adicionadas. Da casa saem justamente o Requiem e o Re Minor, dois dos rótulos que estarão nas taças. Espanhol, ele construiu carreira na fronteira entre a enologia e a comunicação, defendendo o enomarketing como disciplina própria, algo entre a estratégia de marca e a leitura cultural do vinho. É esse repertório duplo, de quem faz e de quem interpreta, que ele traz para a mesa baiana.
Cinco etapas, quatro espanhóis e um final português
O menu, elaborado pelo chef Ricardo Silva, foi desenhado em cinco etapas, uma para cada taça, com rótulos representados no Brasil pela importadora Del Maipo. O percurso desenha um arco reconhecível: abre leve, ganha corpo, fecha doce.
O ponto de partida é o Aradon Rioja branco, da Bodegas Aradón, cooperativa de Alcanadre, na Rioja Oriental, tocada por cerca de 60 famílias de viticultores. É um branco de viura e garnacha branca, floral e cítrico, do tipo que abre apetite sem disputar espaço com o prato.
Vem então o Charlatán Rosé, da Bodega César Príncipe, em Fuensaldaña. Feito de garnacha tinta com prensagem direta e fermentação a baixa temperatura, é um rosado pálido que a própria bodega define como um rosé com alma de branco, deliberadamente afastado dos claretes tradicionais da DO Cigales.
Os tintos chegam com o Re Minor Cosecha e o Requiem Cosecha, ambos da Requiem Hispania. São Ribera del Duero de baixa intervenção, com o Re Minor funcionando como o irmão mais jovem e imediato do Requiem, e a etapa em que Pablo deixa de falar de vinho alheio para falar do próprio.
O fecho cruza a fronteira. O Porto Valriz, da família Coimbra de Mattos, vem do Douro, em Portugal, produzido em Galafura, no concelho de Peso da Régua, com estágio em tonéis de castanho. É um tawny de avelã, amêndoa e especiaria, e é ele que acompanha a sobremesa. Ou seja: a noite é espanhola de ponta a ponta e termina em português, o que é menos uma inconsistência do que uma escolha de curadoria. Nenhum país da Península resolveu o vinho de sobremesa como Portugal.

A Rua Chile virou eixo enogastronômico
O endereço não é detalhe. O Silva Cozinha deixou o Rio Vermelho em maio, depois de quase três anos na Rua da Paciência, e se instalou no número 7 da Rua Chile, primeira rua do Brasil, com vista para a Baía de Todos-os-Santos. A mudança colocou a casa dentro de um movimento mais amplo de reocupação do Centro Histórico, que nos últimos anos passou a concentrar operações gastronômicas de ambição, e não apenas de conveniência turística.
À frente da cozinha segue o chef Ricardo Silva, com a sub-chef Ianca Nascimento e a confeiteira Anana Campos. A carta de vinhos da casa leva a assinatura da sommelière Carol Souzah, colunista do Muito Gourmet, com rótulos exclusivos da Del Maipo, o que ajuda a explicar por que o jantar de 10 de agosto não é um evento avulso, e sim a extensão natural de uma carta já construída sobre esse eixo ibérico.
Trazer um produtor espanhol para conduzir uma degustação numa segunda-feira à noite, no Centro Histórico de Salvador, com cinco etapas e taça a taça, é um gesto que diz algo sobre o momento da cidade. Há dez anos, esse tipo de encontro acontecia em capitais do Sudeste e chegava aqui por reflexo. Agora chega direto.

Serviço
Jantar harmonizado Silva Cozinha com Pablo Miranda Roger
Data: 10 de agosto de 2026, segunda-feira
Horário: 19h30
Local: Silva Cozinha, Rua Chile, 7, Centro Histórico, Salvador (BA)
Formato: cinco etapas, com cinco harmonizações
Investimento: R$ 420 por pessoa
Reservas: WhatsApp (71) 99688-5535
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