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Fiz 49 pontos de 300 numa degustação às cegas. E voltaria amanhã

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Doze vinhos sem rótulo no Palacete Tira-Chapéu provaram que, sem sobrenome, o vinho não deixa ninguém mentir

Salvador sediou no dia 20 de agosto de 2026 a segunda edição do Campeonato Brasileiro de Degustação, no Palacete Tira-Chapéu, no Centro Histórico. Foram 30 degustadores, 12 vinhos servidos às cegas entre tranquilos, espumantes e fortificados, e 10 minutos por amostra para responder quatro perguntas: qual a uva predominante, qual o país, qual a região e qual a safra. Cada amostra vale 25 pontos, o total possível é 300. Eu fiz 49. E é exatamente sobre esses 49 pontos que eu preciso escrever.

campeonato brasileiro de degustacoes as cegas
Campeonato Brasileiro de Degustação – Foto: Reprodução @winebrasilmusic.

Eu fui o corredor de domingo que se inscreveu numa meia maratona

O convite veio de Fred Poli, da Cork Wine Lab, um dos apoiadores que viabilizaram a chegada do campeonato a Salvador. Aceitei sabendo com precisão o tamanho do buraco em que estava entrando.

Amo vinho, leio sobre vinho, escrevo sobre vinho, vou a eventos e bebo com atenção. Mas amar não é treinar. Identificar uva, país, região e safra de doze rótulos desconhecidos exige estudo sistemático, biblioteca sensorial construída com método e horas de prova cega repetida até virar reflexo. Eu não tinha nada disso. Tinha curiosidade e um caderno de memórias afetivas, que é uma coisa linda de se ter e uma coisa péssima de se levar para uma competição.

É mais ou menos como o sujeito que corre cinco quilômetros no fim de semana e se inscreve numa prova de Maratona. Ele não vai pelo pódio. Vai para descobrir em que quilômetro o corpo trava, em que momento a cabeça começa a negociar e o que sobra dele depois da linha de chegada. Fui por motivo: queria saber o que acontece quando você tenta entender o vinho sem a muleta do rótulo.

O silêncio de um salão cheio de gente concentrada

Foi tudo montado num espaço de eventos na Rua Chile, no Centro Histórico. Trinta pessoas sentadas, fileiras de taças idênticas, fichas em branco. E um silêncio que eu não esperava encontrar num evento sobre vinho, que é justamente a bebida que existe para produzir barulho de conversa.

O que mais me marcou foi a coreografia. Cada um tem a sua. Tem quem gire a taça devagar, quase em liturgia, e demore uma eternidade antes de escrever a primeira palavra. Tem quem cheire, prove, anote e feche a ficha com uma rapidez quase insolente, como quem já reconheceu um velho conhecido na rua. Tem as caras e bocas, que denunciam a dúvida antes de qualquer resposta oficial: a testa que enruga, o olhar que sobe procurando um arquivo mental, o balanço de cabeça de quem acabou de descartar uma hipótese. Ninguém falava e mesmo assim dava para ler a sala inteira.

E existe um detalhe de desenho da prova que transforma tudo em esporte: o resultado aparece a cada rodada. Você erra o vinho três e carrega o erro para o quatro sabendo exatamente onde está o seu nome. É um tipo de pressão que não tem nada a ver com paladar e tudo a ver com temperamento. Vi gente experiente respirar fundo antes de encarar a taça seguinte.

Nos intervalos, o salão virava outra coisa. A conversa explodia, o comentário divertido sobre a amostra impossível, a troca honesta de raciocínio entre pessoas que segundos antes competiam entre si. Ninguém guardava segredo, ninguém fazia charme. Aquela mistura de seriedade absoluta durante a prova e camaradagem imediata fora dela foi, para mim, o retrato mais fiel do dia.

A memória tem sotaque

Quase todos os vinhos que pontuei eram italianos.

Não foi mérito, foi biografia. Morei um ano e meio na Toscana, e existem coisas que entram pelo nariz e simplesmente não saem mais. O que meu cérebro fez ali não foi análise, foi reconhecimento. Antes de eu formular qualquer raciocínio técnico, alguma parte de mim já tinha dito “isso aqui eu conheço”, do mesmo jeito que a gente reconhece a voz de alguém no telefone sem que a pessoa diga o nome.

Foi a constatação mais bonita do dia, e vale para muito além do vinho: papila e olfato guardam endereço. O paladar é um arquivo de geografia afetiva. Você não decora um território, você o incorpora.

O reverso disso também apareceu, e sem piedade. Um neozelandês ou um australiano, para mim, é território estrangeiro. Nunca morei lá, nunca bebi com frequência, não tenho pasta aberta no arquivo. E o que não está no arquivo não se recupera na hora da prova.

Confundi um Piper-Heidsieck com um Casa Valduga

Aconteceu, e eu conto sem constrangimento nenhum. Provei, pensei em espumante da Serra Gaúcha, cheguei a formular mentalmente um produtor, a Casa Valduga e escrevi. Era Piper-Heidsieck. Champagne, casa fundada em 1785.

O reflexo esperado aqui seria a vergonha. Não sinto. Não porque eu subestime um champagne, isso seria burrice de iniciante, mas porque o espumante brasileiro chegou a um patamar em que a hipótese era plausível. Nossa altitude, nossa acidade natural, nosso método tradicional maduro: existe hoje espumante nacional que compete de igual para igual em cegueira total, que é o único tribunal que não aceita suborno.

E aqui está o que a prova às cegas faz de mais interessante e mais incômodo. Ela arranca o sobrenome do vinho. Sem rótulo não existe denominação de origem impressa, não existe preço na prateleira, não existe selo de importadora, não existe a história bonita que o produtor conta sobre o avô que plantou a primeira parreira. Sobra o líquido, respondendo sozinho.

Uma parte considerável do que se vende como vinho no Brasil é, na verdade, narrativa. Eu vivo de narrativa, construo marca com narrativa, acredito profundamente em storytelling. Por isso mesmo posso dizer sem hipocrisia: narrativa é o que envolve o produto, não o que o substitui. Na taça anônima, o marketing não entra. É um exercício de humildade obrigatória, e o mercado inteiro deveria fazê-lo com mais frequência.

O campeão fez 176. De 300.

Alexandre Takei, sommelier profissional e educador, venceu com 176 pontos. Guarde o número. Cento e setenta e seis de trezentos. Menos de 60% do total possível, feito pelo melhor degustador da sala.

Em segundo, Tiago Sousa de Araujo, WSET nível 3, com 158. Em terceiro, Marcelo de Carvalho Monteiro, WSET 3 e French Wine Scholar, com 157. Em quarto, Renato Lyra, educador com WSET 1, 2 e 3, com 154. Em quinto, Gabriel Tarsitano Ribeiro, com 153.

Sobre Marcelo, uma nota necessária e sem comoção. Ele tem deficiência visual. A prova era às cegas para todo mundo, e ele terminou em terceiro. Não é caso de inspiração fácil, é caso de competência técnica: onde a maioria usa o olho como atalho, ele treinou nariz e boca até não precisar do atalho. Se alguém ainda duvidava de que a análise visual é a etapa mais superestimada da degustação, a resposta estava sentada ali, com 157 pontos.

E se o topo deixou 124 pontos na mesa, a mensagem fica clara. O vinho é maior do que qualquer um de nós. Meus 49 pontos, nesse contexto, param de ser vexame e viram o que de fato são: uma linha de base. Um ponto de partida com data e local registrados.

O que Salvador ganhou nisso

A primeira edição foi em São Paulo, em setembro de 2025. A segunda veio para cá. Salvador é reconhecida pelo dendê, pelo mar e pelo axé, e faz muito bem em ser. Mas há uma cena de vinho crescendo aqui, com gente estudando a sério, e sediar um campeonato nacional é o tipo de sinal que não se compra com verba publicitária.

Vou me esforçar para ir na edição do próximo ano. Dessa vez com treino, com caderno, com prova cega semanal e alguma vergonha na cara. E se ainda assim eu não souber separar um Marlborough de um Barossa, tudo bem. Porque o que eu trouxe do Palacete Tira-Chapéu não foi pontuação. Foi a certeza de que o vinho só é completamente honesto quando ninguém sabe o nome dele. Todo o resto é embalagem.

Minha gratidão ao Fred Poli e ao Cork Wine Lab pelo convite. Me senti um atleta. Um atleta ruim, mas um atleta.


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