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Buenos Aires além do óbvio: 11 paradas para comer, beber e aproveitar a cidade (Parte 1)

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Mixologista e sommelier de cerveja, Dan Morais reúne bares do 50 Best, bodegones, charutos e um bate-volta a Tigre

Buenos Aires tem dois bares da lista The World’s 50 Best Bars a poucos quarteirões um do outro, em Palermo, e isso diz muito sobre a cidade que o mixologista e sommelier de cerveja Dan Morais, colunista quinzenal do Muito Gourmet, escolheu para abrir um roteiro em duas partes. Nesta primeira, são onze paradas que fogem do circuito parrilla, empanada e Malbec: um casarão de 1922 restaurado na Recoleta, uma carta inteira de coquetéis sem álcool em Palermo Chico, o Barrio Chino de Belgrano, um speakeasy escondido atrás de um restaurante de sushi, um rooftop para charutos e um bate-volta até Tigre. É o guia de quem conhece a cidade pelo balcão.

Buenos Aires além do óbvio: 11 paradas para comer, beber e aproveitar a cidade

Buenos Aires é daquelas cidades que sempre sobra alguma coisa para fazer na próxima viagem: seja um restaurante que ficou na lista, um bar descoberto por acaso ou uma rua que você resolveu seguir sem saber onde iria dar. Entre suas avenidas movimentadas, construções históricas, livrarias, cafés e uma cena gastronômica que parece não parar de crescer, a capital argentina oferece muito mais do que as tradicionais parrillas, empanadas e taças de Malbec.

Quem visita a cidade pela primeira vez costuma dividir os dias entre Caminito, San Telmo, Recoleta, Palermo, o Obelisco e alguns outros pontos turísticos. Mas, para mim, uma das melhores formas de conhecer Buenos Aires é justamente aproveitar essas andanças para descobrir onde os portenhos comem, bebem e se encontram. Nem sempre é preciso cruzar a cidade para fazer uma boa refeição ou tomar um excelente drink. Às vezes, o lugar que merece entrar no seu roteiro está a poucos metros de onde você já pretendia passar.

E como nem sempre temos tempo para conhecer tudo, resolvi reunir alguns dos lugares que mais gosto e acho legais para quem quer aproveitar melhor a viagem, seja numa primeira visita, seja naquele retorno já mais familiarizado com a cidade. Nesta primeira parte, são onze paradas que vão de pequenos estabelecimentos de bairro a alguns dos bares mais renomados do mundo, passando por casarões históricos, uma excelente seleção de cervejas, um rooftop para os amantes de charutos e até um passeio fora da capital.

Recoleta e Palermo Chico: história, arquitetura e boas experiências à mesa

Mansión Mihura

Se você pretende visitar a Floralis Genérica, conhecer a região da Recoleta ou simplesmente caminhar por uma das áreas mais bonitas de Buenos Aires, vale reservar um tempo para a Mansión Mihura. Inaugurado em 2026 em sua nova fase gastronômica, o espaço ocupa uma residência construída em 1922 pelo arquiteto Eduardo Lanús para a família Mihura. O casarão passou por uma restauração que preservou sua história e o transformou em um endereço dedicado à gastronomia, à coquetelaria e aos encontros.

Integrada ao Recoleta Grand Hotel, a mansão reúne quatro propostas: The Atrium, uma brasserie portenha que funciona desde o café da manhã; The Dining Room, com a cozinha autoral de Maximiliano Matsumoto; The Parlor Bar, dedicado à coquetelaria; e The Club, que acrescenta música e programação noturna à experiência. Embora seja possível visitar o espaço para um café ou brunch, minha recomendação é conhecer a casa também à noite. A iluminação, a arquitetura e o cuidado com o atendimento ajudam a construir uma experiência que vai além da gastronomia. Com Juani Bardon (ex-chefe de bar do Punto Mona) na barra, a hospitalidade já foi um diferencial: as sugestões foram sensacionais e o que mais gostei foi o La Mula (Chivas 12, Ardbeg 10, limão, gengibre e gaseificado posteriormente). É uma oportunidade de conhecer um pedaço da Buenos Aires do início do século passado que encontrou uma maneira interessante de continuar fazendo parte da vida da cidade.

Casa Cavia

Seguindo em direção a Palermo Chico, especialmente para quem pretende conhecer o MALBA ou caminhar pelas ruas arborizadas da região, vale incluir a Casa Cavia. Instalada numa residência histórica, a casa reúne gastronomia, café, coquetelaria e um belo jardim interno, daqueles que convidam a prolongar a visita. É uma excelente opção tanto para o café da manhã e brunch quanto para uma refeição mais demorada, com um serviço atento aos detalhes.

Um dos grandes diferenciais está no trabalho da bartender Flavia Arroyo, responsável por uma coquetelaria que também dedica enorme atenção às bebidas sem álcool. O projeto Prototipo Cero apresenta uma carta inteira de coquetéis não alcoólicos, com bases desenvolvidas na própria casa, técnicas contemporâneas e combinações que não ficam devendo em complexidade às versões alcoólicas. Para quem prefere um bom chá, há também uma seleção excelente, inclusive com curadoria de Inés Berton. O meu drink favorito foi o House Club (Cognac Zero com Cogumelos, Mix de Framboesas e Grenadine, Limão, Cereja e Rosas), que casou muito bem com uma tostada de abóboras, queijo vegano, dill e mostarda. É um lugar onde a experiência de beber bem não depende necessariamente da presença de álcool.

Belgrano: uma viagem pela Ásia sem sair de Buenos Aires

Barrio Chino e Palitos

Outro passeio que merece entrar no roteiro é o Barrio Chino, em Belgrano. A região reúne supermercados, pequenos restaurantes, lojas de produtos asiáticos e barracas de comida de rua, sendo um daqueles lugares onde a melhor coisa a fazer é caminhar sem muita pressa (acredite, aqui você perde a noção do tempo). Aproveite para experimentar algumas comidinhas pelo caminho, entrar nos mercados e garimpar temperos, snacks, bebidas e ingredientes que muitas vezes custam bem menos do que encontraríamos no Brasil. Há uma variedade enorme de produtos, inclusive alguns que dificilmente aparecem nas prateleiras dos nossos supermercados.

Na hora de comer, uma das minhas indicações é o Palitos, pequeno restaurante de culinária chinesa e taiwanesa: sem grandes formalidades, o lugar tem aquele perfil de restaurante de bairro onde o mais importante continua sendo a comida. Os pratos são bem servidos e há também menu executivo, mas eu não deixaria de pedir a Sopa de Carne (com macarrão, extremamente aromática e saborosa) e os Dumplings de Porco (no vapor, com um molho sensacional). É uma ótima maneira de fazer uma refeição durante o passeio, especialmente para quem gosta de explorar diferentes preparos da cozinha asiática sem precisar necessariamente procurar um restaurante sofisticado.

Kōnā

Mas, se a ideia for prolongar a visita a Belgrano e transformar o passeio em um jantar, vale conhecer o Kōnā, projeto de Narda Lepes e Inés de los Santos. Inaugurado em 2023 e selecionado pelo Guia Michelin, o restaurante apresenta uma cozinha japonesa que valoriza técnicas e preparações tradicionais, num ambiente em que a arquitetura também chama atenção. A coquetelaria merece destaque, especialmente no bar do andar superior, que pode funcionar tanto como ponto de partida quanto como encerramento da refeição. O Beef Tataki (com gema curada) e o Tempurá de Lagostin (com crème de abacate) são de outro mundo, mas o Ash (Gin, Shochu, Blend de Vermutes com Gergelim Torrado e Picles de Bambu) é um clássico da carta que precisa ser provado. Outro ponto que amei e vale demais se estiver em grupo: há um karaokê numa parte reservada do restaurante, se quiser quebrar o clima mais formal. Uma ótima escolha para quem quer jantar bem e aproveitar a noite sem precisar voltar imediatamente para Palermo.

Palermo: uma das melhores cenas de coquetelaria do mundo

Palermo concentra alguns dos endereços mais interessantes da gastronomia e da coquetelaria argentina. Entre lojas, cafés, galerias e restaurantes, é fácil reservar uma tarde para passear e perceber que o bairro também merece uma noite inteira. Principalmente quando falamos de drinks. Dois estabelecimentos ajudam a explicar por que Buenos Aires conquistou tanto espaço no cenário internacional: Tres Monos e Cochinchina, que figuram há alguns anos na lista The World’s 50 Best Bars. Mas, embora dividam o reconhecimento internacional, oferecem experiências bastante diferentes.

Tres Monos

O Tres Monos, em Palermo Soho, foge daquela imagem de coquetelaria sofisticada em que tudo parece exigir silêncio e formalidade: o ambiente é descontraído, a música tem presença e a proposta reúne técnica, criatividade e uma relação muito próxima com a identidade argentina. O trabalho de Sebastián Atienza e Gus Vocke com ingredientes locais, produtores e bebidas desenvolvidas pela própria equipe ajuda a construir uma coquetelaria que não depende apenas de apresentações elaboradas para surpreender. Da última carta, o drink que mais gostei foi o Kiwin Gancia (Gin Príncipe de los Apóstoles, Americano Gancia, Erva Mate, Kiwi, Suco), que representa bastante os ingredientes locais. É um daqueles bares que conseguem ser relevantes internacionalmente sem perder a personalidade, com uma atmosfera onde o balcão e o contato com os bartenders fazem parte da experiência (o que faz ser minha parada obrigatória em Buenos Aires).

Cochinchina

Já o Cochinchina, comandado pela mixologista Inés de los Santos (a mesma do Kōnā), segue outro caminho: com referências da cozinha vietnamita e influências francesas, o espaço combina gastronomia, coquetelaria e uma ambientação marcante. As cores, a decoração e os diferentes ambientes criam um cenário que dialoga diretamente com o que chega à mesa e ao copo. Vale tanto para jantar quanto para dedicar a noite aos drinks, especialmente se você gosta de descobrir como ingredientes, aromas e diferentes referências culturais podem aparecer numa mesma experiência. O Es Muy Japo (Gin, Doburoku Sake, Cordial de Mirin, Tuile de Wasabi), o meu favorito, e o Jazmin Shangai (Whisky Chivas Mizunara, Umeshu, Chá de Jazmin) retratam bem a atmosfera da casa, além de combinarem bem com variados pratos da casa. É um endereço que mostra como a gastronomia e a coquetelaria podem caminhar juntas, sem que uma precise funcionar apenas como complemento da outra.

Nicky Harrison

Se ainda houver disposição para continuar a noite, inclua o Nicky Harrison. Escondido atrás de um restaurante de culinária japonesa, o bar segue o conceito dos speakeasies, inspirado nos estabelecimentos secretos dos Estados Unidos durante a Lei Seca. Luz baixa, decoração que remete à Nova York dos anos 1920, jazz e uma atmosfera intimista fazem dele uma opção interessante para quem prefere terminar a noite com um bom coquetel, sem tanta pressa de voltar ao hotel. Não saia sem beber o Moonshiner (Chivas 12 em Fat Wash de Milho e Especiarias, Limonada de Cevada e Maple, Espuma de Humita). É também uma boa escolha para um programa a dois, especialmente para quem gosta de lugares onde o ambiente tem tanta importância quanto a carta de bebidas.

Bodega de Cervezas (Beer Cellar)

E, como nem só de coquetéis vive uma viagem, Palermo reserva um dos meus endereços favoritos para quem gosta de cerveja: a Bodega de Cervezas (Beer Cellar). Para mim, é o melhor lugar para beber cerveja em Buenos Aires: não apenas pela quantidade de rótulos disponíveis, mas principalmente pela curadoria feita por Martín, proprietário do estabelecimento. A seleção contempla algumas das melhores cervejas artesanais argentinas, além de exemplares internacionais que fazem qualquer apaixonado pelo assunto querer olhar cada prateleira com calma.

A Bodega é pequena, intimista e tem algo que considero cada vez mais raro: o clima de um lugar onde as pessoas realmente se encontram para conversar sobre cerveja. Muitos clientes já se conhecem (inclusive fiz bons amigos lá), Martín compartilha informações sobre os rótulos e, entre uma garrafa e outra, a visita pode durar muito mais do que o planejado. Sempre disponíveis, gosto muito das sours da Jabalina e das cervejas da Juguetes Perdidos e Tuut (ambas com um trabalho exímio de envelhecimento em barris), mas é só perguntar a Martín que ele encontrará a cerveja perfeita para você. É um endereço que recomendo sem pensar duas vezes, tanto para beber por lá quanto para descobrir cervejas que merecem voltar na mala.

Centro: boa comida, Avenida Corrientes e charutos

Las Cañas

Se o seu passeio passar pelo Obelisco, pela Avenida Corrientes ou pela região dos teatros, há um restaurante ao qual sempre gosto de voltar: o Las Cañas, localizado no Paseo La Plaza. Com aquela atmosfera de bodegón portenho, o estabelecimento aposta numa cozinha tradicional, com pratos generosos, atendimento de quem conhece a casa e uma relação entre preço e qualidade cada vez mais difícil de encontrar em grandes centros turísticos.

É um daqueles lugares em que não é preciso inventar muita coisa para comer bem. A comida é boa, as porções são fartas e os preços continuam bastante justos. Aqui eu gosto de pedir comida portenha clássica: algo da parrilla, empanadas (aqui tenho certeza de que não possuem lactose) e vinho, sem erro e sempre bom. Uma dica é perguntar pelas condições de pagamento em efectivo, como os argentinos chamam o dinheiro em espécie, já que podem existir descontos nessa modalidade. Depois da refeição, aproveite para caminhar pela Corrientes, observar o movimento dos teatros, entrar numa livraria ou simplesmente continuar descobrindo o centro. Para mim, Las Cañas é parada quase obrigatória em Buenos Aires.

Piso 15 Sky Bar

Ainda na região central, mas com uma proposta completamente diferente, o Piso 15 Sky Bar, no Edifício Comega, merece atenção especial dos amantes de charutos. Localizado no 15º andar, o rooftop oferece uma bela vista de Buenos Aires, com gastronomia, bebidas e uma programação que também inclui música e festas. Entretanto, o grande diferencial, pelo menos para quem aprecia o universo dos puros, está na área dedicada aos charutos.

O espaço possui um amplo humidor com uma seleção de charutos cubanos e de outras origens, além de ambientes onde é possível aproveitar a experiência com mais tranquilidade. O aroma característico dos charutos, a iluminação e a vista da cidade criam uma combinação bastante particular. Se escolher um charuto de entrada, harmonize com o Yogyakarta (Gin, Rum Flor de Caña, Limão, Maracujá, Horchata de Arroz e Cúrcuma), já para charutos mais encorpados, vá de Dirty & Smoky (Dry Martini da casa, defumado com Cedro e Alecrim). Mesmo para quem não fuma, é um endereço interessante para conhecer um rooftop diferente dos mais convencionais e, para os aficionados, pode facilmente se transformar em uma das visitas mais memoráveis da viagem.

Tigre: quando vale a pena sair um pouco da capital

E se você tiver um dia disponível, mesmo numa viagem relativamente curta, recomendo considerar um bate-volta até Tigre. Localizada a cerca de 30 quilômetros de Buenos Aires, a cidade oferece uma mudança completa de cenário, trocando as avenidas movimentadas por rios, canais, embarcações e uma paisagem que revela outra face da região. O passeio pode ser feito de forma independente, utilizando o trem da linha Mitre a partir da estação Retiro, com percurso que normalmente leva cerca de 50 minutos.

Minha sugestão é sair pela manhã, caminhar pela cidade, conhecer o Puerto de Frutos (e comer um vacío no Los Isleños, parrilla tradicional localizada lá), visitar os pequenos comércios e reservar algum tempo para navegar pelos canais do Delta do Paraná. Dependendo do ritmo, ainda dá para almoçar com calma, tomar um sorvete na Il Fiume (que recomendo escolher alguma fruta da estação), aproveitar a paisagem e retornar a Buenos Aires no fim da tarde ou começo da noite, sempre conferindo os horários dos trens e, enquanto espera, ainda beber uma cerveja artesanal jogando no fliperama do Rock And Beer (ao lado da estação).

Tigre não precisa ser uma viagem dentro da viagem, com hospedagem e uma programação complicada. Pode ser simplesmente aquele dia em que você decide conhecer algo diferente, comer bem, descobrir outro ritmo e voltar à capital com a sensação de ter visto muito mais do que esperava.

Uma cidade que sempre merece outra visita

O melhor de Buenos Aires talvez seja justamente essa facilidade de combinar experiências tão diferentes num mesmo roteiro. Num dia, um passeio pela Recoleta termina num casarão restaurado; no outro, uma caminhada por Belgrano vira uma descoberta de sabores asiáticos. Palermo oferece alguns dos melhores bares do mundo, enquanto o centro preserva restaurantes onde a boa comida e a hospitalidade continuam falando mais alto do que qualquer tendência.

Estas onze indicações são apenas uma parte do que a cidade oferece e não precisam ser cumpridas como uma lista de obrigações: a ideia é que sirvam de companhia para os passeios, ajudando a escolher onde parar, o que conhecer e quais experiências merecem um pouco mais do seu tempo.

Porque, em Buenos Aires, sempre vai existir outro restaurante para conhecer, uma cerveja que ainda não foi provada e um balcão esperando a próxima conversa. E é justamente por isso que esta viagem ainda merece uma segunda parte: então prepare suas malas que logo vem a parte 2!


por dan morais
Buenos Aires além do óbvio: 11 paradas para comer, beber e aproveitar a cidade (Parte 1)

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