Da CASACOR para a vida real: o que eu levaria dos bares e cozinhas da mostra
Toda mostra de arquitetura produz duas categorias de ambiente: o que impressiona na foto e o que sobrevive ao uso. Dan Morais percorreu a CASACOR Bahia 2026 procurando a segunda. Gastrônomo, mixologista e sommelier de cervejas, ele olha cozinha e bar pelo avesso do acabamento: onde se apoia a garrafa, onde fica o gelo, quantos passos separam a panela quente da pia. Nesta coluna, ele destrincha cinco ambientes da mostra, de Wesley Lemos a Pedro Chezzi, e separa o que é linguagem de exposição do que cabe, de fato, dentro de um apartamento em Salvador.
Da CASACOR para a vida real: o que eu levaria dos bares e cozinhas da mostra
Quando entro numa cozinha ou encontro um bar, meu olhar naturalmente vai para a funcionalidade! Claro que reparo na pedra, na iluminação, na marcenaria e na escolha dos materiais, mas (como consultor) o que começo a pensar mesmo é no espaço funcionando: onde preparo, onde apoio, onde fica o gelo, como pego uma garrafa, para onde vai a panela quente e quanto preciso andar até conseguir lavar o que usei (que é a parte que mais odeio, confesso!).
Até porque uma cozinha pode estar linda e ser terrível para cozinhar, assim como um bar pode ter dezenas de garrafas caras iluminadas por diversos LEDs e não oferecer espaço suficiente para preparar um único drink (muito menos praticidade na limpeza).
Foi com esse olhar que percorri a CASACOR Bahia 2026: não para analisar os conceitos apresentados pelos arquitetos (até porque não me cabe), mas para perceber o que eu realmente levaria daqueles ambientes para uma casa. Esse ano me surpreendi positivamente comparando com o ano passado e algumas soluções me chamaram bastante atenção.
A Casa Bem Vivida Electrolux foi a mais completa
Entre os projetos que visitamos, a Casa Bem Vivida Electrolux, de Wesley Lemos, foi provavelmente o que melhor reuniu estética, equipamentos e funcionalidade.
A cozinha é integrada à área social, mas continua sendo claramente uma cozinha. Existe uma ilha central ampla, com bastante superfície livre para trabalhar, cuba e área de cocção. Os equipamentos aparecem concentrados na marcenaria, evitando aquela sensação de eletrodomésticos espalhados e acrescentados depois (tipo um showroom desconexo).
Quando forno, geladeira, adega, cooktop e demais equipamentos são definidos junto com o projeto (e não como uma parte secundária dele), a cozinha ganha unidade e o fluxo melhora. Você sabe onde começa o preparo, onde cozinha e onde finaliza: não precisa contornar móveis nem andar uma meia maratona a cada etapa de preparo.
A ilha também consegue cumprir uma função social sem abandonar o trabalho: quem está cozinhando permanece próximo das outras pessoas, mas ainda possui uma área própria para manipular alimentos e apoiar utensílios.
Só precisamos ter cuidado com um erro bem comum: transformar toda ilha em mesa! Se alguém está sentado exatamente diante da principal área de preparo, copos, pratos e objetos pessoais começam a disputar espaço com facas, tábuas e panelas (confiem em mim, uma hora acontece um acidente). A ilha funciona melhor quando cada lado possui uma função clara.
Outro acerto da Casa Bem Vivida é separar o bar da área principal de cocção. O bar aparece num nicho vertical, com bancada, iluminação, taças, bebidas e refrigeração inferior. É compacto, mas possui tudo o que um bar doméstico mais simples realmente precisa, além de ocupar uma parede inteira e também não invade a área em que a comida está sendo preparada.
Essa separação é muito inteligente para quem gosta de receber pessoas: enquanto uma pessoa cozinha, outra pode abrir um vinho, servir uma cerveja ou preparar uma bebida sem entrar justamente no meio da cozinha. O convidado participa do ambiente, mas não interrompe o fluxo de quem está trabalhando.
Para uma casa ou apartamento, eu levaria exatamente essa lógica: uma cozinha completa e um bar menor, próximo à convivência, mas fora da principal área de trabalho.

O aproveitamento da cozinha de Nath Veloso
A cozinha do Loft A Rotina do Agora, de Nath Veloso, segue outro caminho.
Ela é mais compacta e está inserida diretamente no restante do loft: cuba, cooktop, bancada e torre de equipamentos aparecem próximos, criando uma cozinha concentrada e com poucos deslocamentos (isso pode ser muito eficiente quando bem utilizado).
Uma cozinha grande não é automaticamente melhor. Quando os equipamentos ficam distantes demais, cozinhar passa a exigir uma caminhada desnecessária. Você abre a geladeira de um lado, lava o ingrediente do outro e atravessa novamente o ambiente para chegar ao fogão.
No projeto de Nath, a proximidade entre as funções ajuda a tornar o trabalho mais direto: a torre de equipamentos aproveita a altura, libera bancada e resolve vários usos numa faixa relativamente pequena. É uma boa referência principalmente para apartamentos ou lofts em que a cozinha precisa ser completa sem dominar todo o espaço.
O ponto de atenção é justamente a integração. Quando cama, sala de estar e cozinha estão tão próximos, uma boa exaustão deixa de ser detalhe! Vapor, fumaça e gordura não desaparecem porque a cozinha é bonita: se o ambiente não estiver preparado, tudo isso vai circular pelo restante da casa (e ninguém quer passar 3 dias com a casa cheirando a dendê depois de fazer uma moqueca).
Para quem cozinha pouco ou faz preparos mais rápidos, a configuração funciona muito bem. Para quem frita, grelha ou prepara comida com frequência, a coifa, ventilação e facilidade de limpeza precisam ser prioridades. Também tem uma menção honrosa para a minha favorita: a integração da lava-louça no ambiente! Para quem (assim como eu) detesta lavar pós cozinhar, faz toda diferença!


A cuba do Águas que Acalmam
No Águas que Acalmam, da Deca, de Gabriel Magalhães, o elemento que mais me interessou não foi a dimensão da cozinha, mas a cuba.
Ela é uma cuba do tipo workstation, com acessórios e módulos que podem ser movimentados conforme a necessidade: em vez de servir apenas para lavar louça, ela se transforma numa estação para higienizar, apoiar, escorrer, cortar e organizar os ingredientes (essa é uma tecnologia que faz sentido porque altera o trabalho). Ao concentrar diferentes etapas sobre a área molhada, a cuba ajuda a manter a bancada livre e evita que água, cascas e resíduos se espalhem. Para quem cozinha bastante, a possibilidade de lavar e manipular o alimento no mesmo ponto facilita muito a rotina.
Mas o mais importante não é necessariamente comprar aquela cuba específica ou reproduzir o tamanho apresentado na mostra, é entender o princípio. Mesmo uma cuba menor pode receber tábua, escorredor e acessórios de encaixe. O importante é que esses elementos realmente sejam usados e tenham onde ficar guardados depois.
Também temos que observar o espaço inferior: cubas maiores, sistemas hidráulicos, filtros e outros equipamentos podem ocupar boa parte do armário. É preciso manter acesso para manutenção e ainda prever algum lugar para produtos de limpeza, descarte e demais itens da cozinha: não adianta ganhar funcionalidade em cima da bancada e criar um problema permanente embaixo dela. Ainda assim, entre as tecnologias que vi na mostra, essa foi uma das que mais facilmente melhorariam uma cozinha de uso intenso.

O bar na varanda de Dinah Lins
A Varanda Raízes iGUi, de Dinah Lins, deve ter sido o local de que mais gostei nesse ano: o bar funciona porque está localizado exatamente onde as pessoas permaneceriam! Essa parece uma observação simples, mas muitos bares domésticos são instalados no espaço que sobrou, não no lugar em que a bebida será consumida e as pessoas vão interagir (deixando o anfitrião, em muitos casos, sozinho na sua própria farra).
Se a interação acontece na varanda (próximo à piscina), faz sentido que bebidas, copos, gelo e área de apoio também estejam ali. Isso evita aquele movimento constante de entrar na cozinha, abrir a geladeira, retornar para a varanda e depois repetir todo o percurso.
O balcão oferece uma superfície real de serviço, isso é mais importante do que simplesmente ter uma prateleira bonita cheia de garrafas para massagear o ego. Num bar, é preciso apoiar a garrafa, o copo, o abridor, uma tábua, algum recipiente com gelo e aquilo que está sendo servido: se todo o espaço estiver ocupado por decoração, o preparo acaba acontecendo em outro lugar (ou pior, respingando em itens que não deveriam ser sujos).
A ideia da Varanda Raízes pode ser levada para uma casa de forma mais compacta, inclusive como uma pequena bancada gourmet. Nesse caso, é importante escolher materiais adequados à umidade, proteger as garrafas do sol e garantir ventilação para qualquer equipamento de refrigeração.
Aqui em Salvador, calor, maresia e umidade precisam fazer parte das variáveis do projeto desde o início: não adianta montar um bar externo maravilhoso e descobrir depois que o refrigerador não ventila, a madeira começou a sofrer, a coifa é só um depurador que espalha fumaça ou as bebidas passam a tarde recebendo sol.

Pedro Chezzi e o Quintal Brasis
No Quintal Brasis, de Pedro Chezzi, onde funciona a Brigaderia Belga, o que me chamou atenção foi a forma como a área de serviço se mistura à marcenaria do ambiente. A estrutura arqueada em tom bordô reúne taças, utensílios e equipamentos de refrigeração sob a bancada. Quando fica fechada, funciona quase como um grande armário decorativo, mas aberta vira uma estação de bebidas e apoio para a operação da cafeteria. Isso é interessante porque o ambiente realmente é uma cozinha funcional que tem serviço de comida e bebida. Não é apenas um showroom de cafeteria montada para uma exposição: existe uma operação acontecendo ali!
Para uma casa, eu não reproduziria necessariamente toda a estrutura (até porque essa parte específica foi feita pensando em um estabelecimento comercial), mas achei legal a ideia de esconder o bar quando ele não estiver sendo usado. As portas de vidro servem para proteger as taças e objetos da poeira sem fazê-los desaparecer. Eu também gosto da ideia da refrigeração sob a bancada: traz mais funcionalidade e a parte superior pode servir para copos, louças, e o que mais fizer sentido para o projeto.
O espaço também mostra algo importante (fica a dica para os donos de estabelecimentos): bar, restaurante e cafeteria não precisam parecer ambientes engessados que são somente pontos comerciais massificados. É sim possível incorporar equipamentos e armazenamento sem perder personalidade: a vigilância sanitária não exige que tudo seja inox, branco ou pareça um hospital sem vida.

O que realmente vale copiar na CASACOR
No fim, o que eu levaria da CASACOR Bahia para dentro de casa não é um ambiente inteiro, mas as soluções que realmente facilitam a rotina.
Uma ilha precisa ter uma função definida e superfície livre para trabalhar, não ser apenas uma pedra enorme colocada no meio da cozinha para impressionar. A lava-louças tem que ser planejada próxima à cuba e ao local onde pratos, copos e talheres serão guardados. Forno, geladeira, adega e cooktop precisam entrar no projeto desde o início: o projeto deve ser moldado para a funcionalidade dos equipamentos e não eles que devem entrar desconexos em uma fachada bonitinha. E a circulação deve permitir que mais de uma pessoa utilize o ambiente sem transformar cada jantar num corredor polonês.
Também acho que devemos olhar para a tecnologia pelo que ela realmente entrega, utilizando ao máximo as funcionalidades do equipamento. Um forno inteligente pode ajudar no controle de temperatura, no ponto de uma carne e em preparos com vapor, enquanto uma geladeira conectada ao Wi-Fi pode permitir ajustes de temperatura, resfriamento rápido de bebidas e outras funções úteis para quem recebe pessoas com frequência. Mas não adianta comprar o equipamento mais tecnológico disponível e não utilizar metade das funções (ou descobrir depois que ele sequer cabe direito na marcenaria). O mesmo vale para a cuba workstation, para a bancada refrigerada e para a lava-louça: são ótimas soluções quando melhoram o trabalho e estão integradas ao fluxo, não quando entram apenas para deixar a cozinha com cara de showroom.
E, para quem gosta de receber pessoas, um bar funcional precisa estar próximo ao local em que as pessoas realmente permanecem: com bancada livre, copos, bebidas, gelo e refrigeração ao alcance das mãos. Pode ser um nicho compacto, um móvel fechado ou uma estrutura maior na varanda, desde que permita preparar, servir e limpar sem precisar atravessar a casa inteira (e ficar separado dos seus convidados).
Acho que essa é a principal ideia que vale copiar da mostra: não devemos construir uma cozinha ou um bar pensando somente na fotografia instagramável, mas criar um espaço completo, bonito e funcional, onde seja possível cozinhar, beber e continuar participando da própria farra.

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