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O café merece mais do que um dia no calendário

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Em sua nova coluna para o Muito Gourmet, Brenda Matos provoca: celebrar o produto sem nomear quem o produz é apenas marketing.

O Dia Mundial do Café, celebrado em 14 de abril, movimentou redes sociais, marcas e cafeterias, mas deixou no ar uma pergunta que a colunista Brenda Matos decidiu enfrentar de frente. Especialista em café especial e voz quinzenal do Muito Gourmet, Brenda usa esta edição para questionar o que fica quando a janela da data se fecha e o calendário vira a página. Em um setor que se orgulha da rastreabilidade, ela cutuca uma contradição incômoda: celebramos o grão, a fazenda, o terroir, mas raramente o produtor. A coluna a seguir é um convite ao desconforto necessário.


O café merece mais do que um dia no calendário

No dia 14 de abril, celebramos o Dia Mundial do Café. E junto com ele, as redes sociais se encheram de xícaras, as marcas ativaram suas comunicações, e o café ocupou, por algumas horas, o centro de conversas que ele raramente protagoniza fora das cafeterias e dos eventos especializados.

E então chegou o dia seguinte. E o café continuou o mesmo.

Não estou aqui para questionar a utilidade das datas comemorativas… longe de mim! Elas cumprem um papel de visibilidade para uma pauta que quem trabalha no setor cafeeiro defende o ano inteiro.

O problema está no que fazemos com essa atenção quando a janela se fecha. No mercado, de maneira geral, há uma contradição que me incomoda há algum tempo e que datas como essa tornam ainda mais visível: celebramos o produto com grande entusiasmo, mas raramente nomeamos quem o fez.

O café ganhou um dia no calendário. O produtor, na maior parte das vezes, não ganha nem uma linha de crédito na embalagem.

O nome que falta

Em uma indústria que se orgulha da rastreabilidade, ainda é surpreendente a frequência com que o produtor aparece como dado técnico: altitude, variedade, processo de fermentação, e não como protagonista.

Nomeamos o grão, a fazenda, o terroir. Mas a pessoa que acordou antes do sol para colher aquela cereja no ponto exato de maturação ainda é, com muita frequência, uma presença implícita na narrativa que construímos em torno do café.

Há uma diferença fundamental entre rastrear e nomear. Rastrear é um exercício de controle de qualidade, enquanto nomear é um ato de reconhecimento. O primeiro serve à certificação; o segundo, à valorização e à dignidade do produtor e de toda a cadeia produtiva.

Quando a alta gastronomia finalmente incorporou a lógica do “de onde vem”, ela foi capaz de transformar fornecedores em personagens: o pescador, o pequeno produtor de queijo artesanal, a família que cultiva o tomate há três gerações. O café especial tem todo o contexto histórico e cultural para fazer o mesmo, mas ainda patina entre o técnico e o afetivo sem consolidar uma narrativa que coloque o produtor no centro.

produtor de cafe
Foto: Brenda Matos

Celebrar não é suficiente

Uma data comemorativa que não provoca nenhuma mudança de comportamento é apenas marketing. E o café merece mais do que marketing: ele carrega uma cadeia produtiva longa, complexa e profundamente humana que só existe porque há pessoas dispostas a cultivá-lo com dedicação, técnica e afeto.

A pergunta que o Dia Mundial do Café deveria nos fazer não é “você tomou seu café hoje?”. É uma pergunta mais incômoda e mais necessária: você sabe o nome de quem cultivou o que está na sua xícara?

Enquanto essa pergunta não tiver resposta para a maioria dos consumidores, as datas comemorativas seguirão sendo celebrações de um produto sem rosto. E o café, tão plural, tão potente, tão cheio de histórias, merece muito mais do que isso.

brenda site
O café merece mais do que um dia no calendário

Perguntas Frequentes

Quando é comemorado o Dia Mundial do Café?

O Dia Mundial do Café é celebrado em 14 de abril. A data mobiliza marcas, cafeterias e consumidores, mas, como aponta a colunista Brenda Matos, raramente se traduz em reconhecimento direto aos produtores que sustentam a cadeia.

Qual a diferença entre rastreabilidade e reconhecimento do produtor de café?

Rastrear é um exercício de controle de qualidade, que identifica origem, variedade e processo. Nomear o produtor é um ato de reconhecimento e valorização humana. Segundo Brenda Matos, a indústria do café especial ainda confunde as duas coisas, tratando o produtor como dado técnico em vez de protagonista.

Por que é importante conhecer o produtor do café que consumimos?

Conhecer o nome de quem cultiva o café transforma o consumo em relação, dá dignidade à cadeia produtiva e permite que o consumidor valorize o trabalho humano por trás do produto. Em um mercado que se orgulha da rastreabilidade, nomear o produtor é o próximo passo natural para uma cultura de café especial mais madura.


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