O que você verá na matéria:
- O que fazer em Manaus em 5 dias? Veja o roteiro ideal
- Dia 1 – Primeiros goles de Amazônia: tambaqui, tucupi e ousadia
- Dia 2 – Rio Negro, etnoturismo e o encontro que define o Brasil
- Dia 3 – Presidente Figueiredo: cachoeiras, cavernas e floresta em estado bruto
- Dia 4 – Belle Époque amazônica, mercado popular e vista infinita
- Dia 5 – Sabores finais e cultura popular
- Muito além da floresta
O que fazer em Manaus em 5 dias? Veja o roteiro ideal
Fugir do Carnaval de Salvador para mergulhar no coração da Amazônia pode soar como heresia para alguns. Mas entre os dias 13 e 17 de fevereiro, enquanto muitos decidiam o circuito do trio, eu me perguntava o que fazer em Manaus em 5 dias — e troquei o som das caixas de som pelo canto dos pássaros, o sal do mar pela doçura ácida do cupuaçu e o dendê pelo tucupi.
Manaus não é apenas um destino. É um choque cultural. É floresta que invade a cidade. É rio que impõe respeito. É uma gastronomia que desafia qualquer paladar acostumado ao óbvio.
E aqui está o roteiro de 5 dias que abriu meus olhos, e pode abrir os seus também.
Dia 1 – Primeiros goles de Amazônia: tambaqui, tucupi e ousadia
Chegamos a Manaus por volta das 11h30, após conexão em Recife. Cansados, mas curiosos. Deixamos as malas no hotel e seguimos direto para a primeira imersão: o restaurante Choupana.
O primeiro mergulho no sabor
- Caldinho de tambaqui
- Caldinho de tucupi com jambú
- Tambaqui à Choupana (costela e lombo, legumes sautée, farofa de peixe seco, banana frita e arroz)
- Creme de cupuaçu com geleia
Os caldos funcionam como uma espécie de “iniciação amazônica”. O tucupi (caldo amarelo extraído da mandioca brava e fermentado por dias) é ácido, profundo, quase elétrico. O jambú provoca um leve formigamento que confunde a mente e diverte a boca.
O tambaqui impressiona: carne branca, macia, saborosa, pele crocante. A farofa lembra nossa paçoca nordestina, mas no lugar da carne seca entra um pirarucu delicadamente salgado. Do lado da nossa mesa nadavam dentro do aquário alguns tambaquis e eu só pensava na delícia da sua carne.
E o creme de cupuaçu? Equilíbrio perfeito entre o azedinho pulsante e a doçura na medida exata.
Jantar no Banzeiro: ousadia amazônica contemporânea
À noite, fomos ao Banzeiro, referência nacional da cozinha amazônica e com unidade em São Paulo reconhecida pelo Guia Michelin na categoria Bib Gourmand.
Provamos:
- Formiga saúva com creme de mandioquinha
- Bao de camarão
- Pipoca de feijão manteiguinha com melado de tucupi e pimenta baniwa
- Pirarucu empanado com farinha de tapioca, fonduta de queijop e arroz negro.
A formiga é mais impacto mental do que gustativo. O bao não impressionou. A pipoca de feijão manteiguinha com melaço de tucupi, por outro lado, é simplesmente sensacional. Doce, salgado, ácido e picante na mesma colherada.
O pirarucu empanado com farinha de tapioca, escoltado por fonduta de queijo e arroz negro, é aquele tipo de prato que poderia existir em qualquer metrópole cosmopolita, se não fosse o fato de que aqui o protagonista vem dos rios amazônicos. É cozinha internacional com sotaque forte, onde a técnica é global, mas o território é inegociável.
Manaus deixa claro desde o primeiro dia: aqui não se come apenas para saciar. Come-se para entender.


Dia 2 – Rio Negro, etnoturismo e o encontro que define o Brasil
Acordamos cedo para um tour fluvial pelo Rio Negro com a Iguana Tour, um operação organizada, pontual e com guias preparados. Os guias Kellen e Josué conduziram o passeio, enquanto Sandro Bala, piloto experiente, driblava os famosos “banzeiros”, as ondas fortes que se formam nos rios amazônicos.
Subimos o Rio Negro por cerca de 45 minutos até a Aldeia Cipiá, cujo nome significa “povo alegre” em tucano. Uma experiência de etnoturismo respeitosa e educativa.



Passamos pela Comunidade do Lago do Catalão, o curioso bairro flutuante de Manaus, observamos vitórias-régias imensas e finalizamos no monumental Encontro das Águas, fenômeno onde o Rio Negro (escuro e quente) corre lado a lado com o Rio Solimões (barrento e frio) sem se misturar por quilômetros. Coloquei a mão na água no exato local do encontro e pude sentir e perceber a diferença entre as águas que parecem não se misturar, algo a nunca se esquecer.
Ali, entendemos geografia, física e poesia de uma só vez.
Jantar amazônico-japonês
À noite, fomos ao Shin Suzuran, um dos restaurantes japoneses mais tradicionais de Manaus, em funcionamento desde a década de 1970. Mais do que um restaurante, é um capítulo da história da imigração japonesa na Amazônia. A região abriga uma das comunidades nipônicas mais importantes do país fora do eixo Sudeste.
O que poderia ser apenas uma casa clássica de sushi revela algo muito maior: um trabalho contínuo de pesquisa sobre ingredientes amazônicos e suas possibilidades dentro da técnica japonesa.
Provamos:
- Sashimi de tucunaré, fresco e delicado
- Niguiri de tucunaré
- Sushi Vitória Régia: tucunaré à milanesa com lâminas de vitória-régia caramelizada
- Tempurá de urtiga – a temida cansanção de minha infância
- Preparações que transitavam com naturalidade entre o rigor técnico oriental e a potência amazônica
Foi, sem exagero, uma das maiores surpresas gastronômicas da viagem.
Ali, o Japão não está deslocado da floresta, ele conversa com ela. O resultado é uma cozinha que respeita tradição, mas olha para o território onde está inserida. Um tipo de sofisticação silenciosa que não precisa gritar para ser memorável.

Dia 3 – Presidente Figueiredo: cachoeiras, cavernas e floresta em estado bruto
A cerca de 2 horas de Manaus está Presidente Figueiredo, conhecida como a “Terra das Cachoeiras”. Não é força de expressão: a região abriga mais de 100 quedas d’água catalogadas, espalhadas entre cavernas, grutas e rios de coloração surpreendente.
O passeio foi conduzido pela Iguana Tour, que já havia nos acompanhado no tour fluvial. Aqui, mais uma vez, confirmou-se como sinônimo de organização, segurança e curadoria cuidadosa, algo essencial quando se está prestes a entrar mata adentro.
Visitamos:
- Caverna do Maroaga
- Gruta da Judéia
- Lagoa Cristalina
- Cachoeira de Iracema
A trilha de aproximadamente 3 km até as duas grutas é uma aula viva de floresta. O guia local Daniel transforma o percurso em experiência imersiva: fala sobre árvores medicinais, técnicas de sobrevivência, ciclos naturais e histórias da região com carisma raro. Não é apenas caminhada, é interpretação ambiental com profundidade.
O almoço regional na propriedade da Lagoa Cristalina trouxe um tambaqui na brasa memorável. Conselho honesto: não ouse pedir outra coisa.
E então vem a Lagoa Cristalina, talvez o momento mais inesperado do dia. Uma paisagem de areia branca no fundo, água deliciosamente límpida, cercada por floresta densa por todos os lados. Parece cenário montado. Não é. É a Amazônia pura e simplesmente.
Curiosidade que faz toda diferença: ali praticamente não há mosquitos. A água, com alta acidez natural, impede a reprodução dos insetos. Um detalhe técnico que transforma completamente a experiência. Você relaxa sem interrupções.
O pacote inclui transporte, entradas nos atrativos, água mineral, almoço regional e guia bilíngue. Em regiões de difícil acesso, essa estrutura faz diferença real. Você pode se concentrar na experiência, não na logística.

Caxiri – Onde o ingrediente amazônico é protagonista absoluto
De volta a Manaus, fomos jantar no Caxiri, um dos restaurantes mais emblemáticos da cidade quando o assunto é cozinha amazônica contemporânea. Se o Banzeiro provoca, o Caxiri consolida, trabalhando com ingredientes regionais com respeito, técnica e uma elegância que não precisa ser espalhafatosa.
Começamos com o “Curas da Floresta”, um conjunto de pequenas criações que traduzem bem a proposta da casa: carpaccio selado na brasa com lascas de parmesão e barbecue de açaí; gravlax de lombo de pirarucu curado na brasa; tostada de focaccia; coalhada de puxuri; picles de maxixe e PANCs. Um passeio por texturas, acidez e defumações sutis, onde o açaí aparece longe do estereótipo doce e o pirarucu assume papel nobre.
De principal, a “Amazônia Encantada”: lombo de pirarucu fresco grelhado na chapa a carvão, legumes tostados, feijão manteiguinha no tucupi, creme ácido e farofinha de castanha com especiarias da casa. Um prato que equilibra rusticidade e refinamento — profundo, aromático e absolutamente territorial.
Encerramos com a “Surpresa de Tucupi!”: sorvete de castanha, compota da estação, garrapinhada e tucupi preto do povo Wapichana. Sobremesa que desafia qualquer lógica óbvia. Ácida, doce, intensa e memorável.
Se o dia foi sobre natureza em estado bruto, a noite foi sobre tradução culinária. O Caxiri transforma floresta em linguagem gastronômica sofisticada sem perder a alma.

Dia 4 – Belle Époque amazônica, mercado popular e vista infinita
Teatro Amazonas: o delírio europeu no meio da selva
Às 9h da manhã estávamos no icônico Teatro Amazonas. Inaugurado em 1896 durante o Ciclo da Borracha, simboliza a opulência de uma época em que Manaus era uma das cidades mais ricas do mundo.
Construído com materiais importados da Europa, entre mármore italiano, colunas de ferro fundido, lustres de murano e com a cúpula revestida por 36 mil escamas cerâmicas nas cores da bandeira brasileira, o teatro é um delírio arquitetônico no meio da floresta. Com uma sala de espetáculo lindamente pintada por artistas franceses e um salão para festas com uma pintura que te coloca no meio da floresta, a visita é imperdível e fascinante.
O governador Eduardo Ribeiro foi peça-chave nesse projeto de modernização urbana. Negro, nordestino, nascido no Maranhão, assumiu o governo do Amazonas no auge do Ciclo da Borracha e conduziu uma das transformações urbanas mais ousadas do Brasil no fim do século XIX.
Sob sua gestão, Manaus ganhou energia elétrica, algo raríssimo no país naquela época, sistema de bondes elétricos, obras de saneamento, pavimentação, iluminação pública e uma reorganização arquitetônica que projetava a cidade como vitrine da modernidade tropical. O Teatro Amazonas era apenas o símbolo mais exuberante de um projeto muito maior.
É impossível dissociar a identidade da cidade da sua visão urbanística. Manaus não seria a mesma sem Eduardo Ribeiro.
O contraste era quase surreal: no meio da floresta, uma elite enriquecida pela borracha importava mármore europeu, cristais franceses e mandava lavar roupas em Paris, um processo que podia levar cerca de cinco meses entre ida e volta. A Belle Époque amazônica não era metáfora. Era literal.
E tivemos a sorte de ser guiados pelo Sr. Milton, um jornalista peruano, cuja narrativa apaixonada transformou a visita em espetáculo. Ele não apenas apresentou o teatro; ele nos fez compreender o contexto social, político e humano por trás daquelas paredes revestidas de luxo.

Mercado Adolpho Lisboa
Inspirado no mercado Les Halles de Paris, o Mercado Adolpho Lisboa é um mergulho na cultura local. A semelhança se dá especialmente quando temos em perspectiva que o seu projetor foi o mesmo senhor Eiffel, sim, aquele da torre parisiense. No restaurante Coreto dos Manaós, provamos matrinxã recheada com farofa e banana frita e o clássico Guaraná Baré, um patrimônio afetivo amazonense.
MUSA: onde a cidade encontra a floresta
O MUSA (Museu da Amazônia) fica na zona de transição entre o urbano e o intocado. Localizado dentro da Reserva Florestal Adolpho Ducke, uma área de aproximadamente 10 mil hectares de floresta preservada, o museu ocupa cerca de 1% dessa imensidão verde. Parece pouco no mapa. É gigantesco na experiência.
Criado para aproximar ciência e sociedade, o MUSA funciona como um centro de pesquisa e educação ambiental em plena floresta primária. Ali, a Amazônia não é conceito abstrato: é organismo vivo.
Durante a visita, passamos por viveiros que abrigam serpentes amazônicas, onde jiboias, cobras-cipós, jararacas — apresentadas com contextualização científica, desmistificando medos e explicando seu papel ecológico fundamental. Há também exposições sobre insetos, fungos, árvores centenárias e ciclos da biodiversidade.
A trilha em si já é uma aula. O cheiro da mata úmida, o som constante da vida invisível e a densidade do ar lembram que estamos num dos biomas mais complexos do planeta.
A experiência culmina na torre de observação de aproximadamente 50 metros de altura. Do alto, a vista é quase desconcertante: de um lado, o verde contínuo da Reserva Ducke; do outro, o concreto de Manaus avançando até onde o horizonte permite.
É o tipo de imagem que reconfigura prioridades. Você entende, sem didatismo, o que está em jogo quando se fala em Amazônia.

Intervalo carnívoro
Depois de tantos peixes, fomos à praia fluvial da Ponta Negra, onde fica o Burgers & Burgers, hamburgueria premiada da cidade. Smash duplo bem executado, fritas corretas e uma banoffee honesta. Nada revolucionário, mas confortável e bem saboroso.
Dia 5 – Sabores finais e cultura popular
Com alerta de chuvas fortes, optamos por uma programação mais leve no Shopping Manauara, cujo patio interno tem um buritizal imenso em altura.
Ali encontramos o café e restaurante Waku Sese e provamos um excelente pato no tucupi, prato clássico da culinária amazônica, intenso e profundo.
À noite, encerramos no Tambaqui de Banda, ao lado do Teatro Amazonas. Pedimos a moqueca caboca: cubos de pirarucu, óleo de urucum no lugar do dendê, leite de castanha-do-pará e vegetais locais braseados.
Drinks homenageando os bois Garantido e Caprichoso embalaram a noite, enquanto bailarinos apresentaram toadas do Festival de Parintins.
Manaus é festa, mas é também identidade.

Muito além da floresta
Se o futuro climático do planeta depende da Amazônia (e depende), essa não é sua única riqueza.
O que mais me surpreendeu foi o povo. A hospitalidade genuína, a educação no trato, a disposição em ensinar, explicar e compartilhar.
Para nós, soteropolitanos, acostumados à potência cultural da Bahia, visitar Manaus é reconhecer outra força igualmente vibrante do Brasil.
Se alguém me perguntar hoje o que fazer em Manaus em 5 dias, eu não responderei apenas com uma lista de atrações. Direi para ouvir as histórias, provar os sabores, sentir o rio, subir na torre do MUSA e entender que ali existe um Brasil que poucos conhecem de verdade.
A Amazônia não é distante. É essencial.
E precisa ser vivida.
Como reservar os passeios?
A Iguana Tour oferece roteiros fluviais e terrestres em Manaus e Presidente Figueiredo (e muitos outros). Contato comercial via WhatsApp. Este roteiro contou com apoio da operadora.
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