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Quem escolhe o seu vinho: você ou IA?

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Vivemos na era das respostas instantâneas. Avaliações por estrelas, rankings globais, algoritmos que prometem precisão milimétrica. Mas quando o assunto é vinho, essa bebida feita de clima, tempo, memória e interpretação, será que a melhor escolha cabe em um comando digitado?

Na nova coluna, Carol Souzah lança uma pergunta incômoda e necessária: estamos terceirizando o nosso próprio paladar? Entre a garrafa e a inteligência artificial, entre o sommelier e o aplicativo, ela reflete sobre confiança, presença e o que se perde quando a escolha deixa de ser conversa e vira clique.

Mais do que um debate sobre tecnologia, é um texto sobre humanidade.

Quem escolhe o seu vinho, você ou a máquina? A garrafa versus a IA

Antes a gente descobria vinho por indicação do sommelier, de um amigo, de uma revista ou de um site especializado. A escolha vinha da leitura, da recomendação de alguém de confiança, da troca de experiências. Havia repertório, referência, conversa. O vinho chegava até nós pelas pessoas, não por um comando.

Hoje, quase tudo passa por apps de avaliação, rankings e, mais recentemente, pela inteligência artificial. E não há problema em usar essas ferramentas, elas informam, ampliam a visão, ajudam a pesquisar. O risco começa quando a gente reduz toda a experiência de escolha a isso. Quando a decisão deixa de ser troca e vira comando, menos conversa, mais clique, menos escuta, mais resposta pronta.

E eu fico pensando no que se perde quando o vinho deixa de ser conversa e vira recomendação automática.

Quem me conhece sabe que sou muito observadora de ambientes. Antes de falar de uva, safra ou região, eu observo a mesa. O ritmo das pessoas, o jeito de folhear o cardápio, se é encontro de trabalho ou aniversário, se querem experimentar ou se querem segurança de rótulos conhecidos.

Outro dia, no salão, vi uma cena que sintetiza bem o nosso tempo.

O casal pediu uma indicação de vinho ao garçom. Ele chamou o sommelier, que, por sorte e investimento da casa, estava ali. O profissional apresentou os pratos, explicou o estilo da cozinha, perguntou sobre preferências e, depois da escolha da comida, sugeriu um vinho. Eles agradeceram com simpatia.

Logo depois, pegaram o celular, abriram o ChatGPT e deixaram que a inteligência artificial escolhesse o vinho.

Naquele momento, não senti raiva ou incômodo com a tecnologia. Foi uma tristeza miúda, dessas que o cotidiano provoca quase em silêncio. Porque não era sobre praticidade. Era sobre confiança.

A gente começou a terceirizar o próprio paladar. Só que vinho nunca foi exato. Harmonização não é equação.

A IA pode cruzar dados de acidez, tanino, teor alcoólico. Mas não provou o molho naquele dia, não sabe que o chef decidiu puxar o prato para o limão, nem percebe o toque defumado que entrou de última hora na receita. Mesmo os clássicos ganham releituras, mudam de tempero, de intenção. Numa situação assim, será que ela realmente sabe mais do que o profissional que conhece a cozinha da casa por dentro?

Porque o trabalho do sommelier não é só indicar rótulo. A gente precisa interpretar gente, transformar desejos ainda confusos em experiência.
É ajustar a escolha ao clima da noite, ao orçamento, à memória afetiva, ao prato real que chega à mesa.

Quando trocamos isso por uma resposta automática, a gente pode até acertar tecnicamente. Mas pode ir se perdendo humanamente.

Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja qual IA escolhe melhor.

Seja outra.
O que acontece quando a gente para de confiar nas pessoas que estão ali, presentes, que estudaram, investiram, foram treinadas, olhando nos nossos olhos?

E nenhuma inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, substitui o gesto humano de escutar e servir.

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Quem escolhe seu vinho? Você ou a IA?
Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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