O que você verá na matéria:
Uma nova voz para falar de café no Muito Gourmet
Café especial é o ponto de partida da nova coluna que o Muito Gourmet estreia. Ela chega com aroma de café fresco, profundidade de origem e olhar crítico sobre consumo, cultura e cadeia produtiva. Brenda Matos, barista, empreendedora, especialista em café e idealizadora do Festival Baiano de Cafés, passa a assinar textos que convidam o leitor a ir além da xícara: entender processos, histórias, pessoas e escolhas que definem o que chamamos de qualidade.
Para abrir a coluna, Brenda parte de uma pergunta que parece simples, mas carrega camadas de significado: o que, afinal, torna um café especial? Entre conceitos técnicos, sensibilidade e reflexão social, o texto abaixo inaugura uma conversa que promete ser tão rica quanto um bom café bem extraído.
A seguir, o texto de estreia da colunista:
O que é especial no café de qualidade?
Por Brenda Matos
Nos últimos anos, o termo “café especial” sofreu um boom e foi inserido no vocabulário do brasileiro com muita rapidez. Alguns atribuem à pandemia e suas novas formas de consumo, outros culpam fielmente o TikTok e suas bebidas aesthetic, mas o fato é: o termo tem marcado presença nos cardápios de cafeterias, nas embalagens em gôndolas de mercados e empórios gourmet e, principalmente, nos discursos de marcas que levantam essa bandeira.
Mas, afinal, o que é café especial?
Aos coffeelovers de plantão, eu posso soar repetitiva no conceito. Mas chego aqui no sapatinho e pedindo licença pra entrar no Muito Gourmet. (:
O que eu vou dizer agora é de conhecimento geral da Nação Cafezeira — ou está simplesmente a um Google de distância. Segundo a BSCA, um café ocupa a categoria de especial quando os grãos são isentos de defeitos e impurezas e possuem atributos sensoriais específicos.
O que buscamos sensorialmente em um café especial (ou de especialidade) é uma bebida limpa e doce, com corpo e acidez equilibrados e que atinjam uma nota acima dos 80 pontos na etapa de análise sensorial.
Além da qualidade do insumo, os cafés especiais precisam ter uma rastreabilidade certificada e, é claro, respeitar critérios de sustentabilidade ambiental, econômica e social em todas as etapas de produção.
Em outras palavras, a qualidade está diretamente ligada a sabermos quando–como–de onde veio esse café. Produtor, fazenda, local, altitude, variedade da planta e forma de processamento do café são informações essenciais que precisam vir na embalagem para que o consumidor consiga fazer esse “caminho de volta” até o início da cadeia de produção.
Durante muito tempo, o mercado tentou resumir qualidade a número. A pontuação é importante para averiguar a qualidade do produto, mas ela nunca foi responsável por traduzir a história inteira. Um café verdadeiramente especial não se sustenta única e exclusivamente pelo resultado sensorial; ele carrega uma cadeia longa, sensível e profundamente interdependente de decisões.
O café é uma mistura de terras, mãos, histórias e afetos. É como a nossa Bahia: plural, potente, criativa, mas também marcada por tensões, desigualdades e invisibilidades.
Ao olharmos para o mundo do café especial, estamos a todo momento revisitando o passado. Voltando ao início. Honrando os saberes ancestrais, o fazer manual e a presença de quem sustenta uma cadeia que é invisível para muitos, mas fundamental para todos.
Só assim a qualidade se sustenta. Quando o que é bom na xícara é bom pra todo mundo, desde o início.


Siga o Muito Gourmet no Instagram e fique por dentro de todas as novidades gastronômicas de Salvador!

