O que você verá na matéria:
- Nossa sommelière Carol Souzah percorre o sudoeste francês e encontra em Gaillac uvas ancestrais e vinhos de mínima intervenção.
- De Paris aos vinhedos
- Estradas, vilarejos e séculos de história
- Por que Gaillac
- Château de Haute-Serre: a outra face da Malbec
- Domaine Michel Issaly: o vinho como modo de vida
- Château Les Vignals: um dia entre vinhas e ânforas
- Domaine Gayrard: a experiência mais marcante
- O que fica de Gaillac
- Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Nossa sommelière Carol Souzah percorre o sudoeste francês e encontra em Gaillac uvas ancestrais e vinhos de mínima intervenção.
Depois de mergulhar nos bares de vinho natural de Paris, nossa colunista e sommelière Carol Souzah trocou o asfalto pelas estradas estreitas do sudoeste francês.
O destino era Gaillac, uma das regiões vitícolas mais antigas da França e hoje um dos endereços mais respeitados quando o assunto é agricultura biodinâmica e vinhos de mínima intervenção.
Nesta etapa final do seu diário de viagem, Carol abre as portas de propriedades que resgatam uvas quase esquecidas, conversa com produtores apaixonados e descobre rótulos que desmentem todo o preconceito contra os naturais. É também a história de uma viagem entre amigas, em que cada taça vem acompanhada de afeto, paisagem e descoberta.
De Paris aos vinhedos
Depois dos bares de vinhos naturais de Paris, era hora de seguir para onde muitas daquelas histórias começam: os vinhedos. Paris ficou para trás pelo retrovisor e, aos poucos, a paisagem começou a mudar. O destino era Gaillac, uma região que há muito tempo eu desejava conhecer, não pelos grandes châteaux ou pelos rótulos famosos, mas pelos produtores que ajudaram a transformar o sudoeste francês em uma das referências da viticultura de mínima intervenção.
Mas essa viagem começou muito antes do embarque. Durante meses, eu e minhas duas grandes amigas, espalhadas por países diferentes, fomos construindo juntas um roteiro que misturava vinho, gastronomia e pequenas cidades. Mônica teve papel fundamental nessa organização, enquanto Letícia, que mora em Figeac, nos apresentou lugares que dificilmente encontraríamos sozinhas. Quando finalmente nos reunimos, tive a sensação de estar vivendo uma viagem que já vínhamos planejando há muito tempo.
Estradas, vilarejos e séculos de história
Seguimos de carro por estradas estreitas cercadas por campos, pequenos vilarejos de pedra, igrejas centenárias e vinhedos que pareciam surgir em todos os cantos. Ao longo do caminho, conhecemos lugares exuberantes como Rocamadour, incrustada nas falésias; Cahors, terra histórica da Malbec; a impressionante Albi, com sua arquitetura de tijolos avermelhados; e a medieval Cordes-sur-Ciel, que parece flutuar sobre as nuvens nas manhãs de neblina. Em muitos momentos, a sensação era de atravessar séculos de história. Era difícil distinguir onde terminava uma pequena vila e começava outra. Quase todas tinham alguma relação com o vinho. Mesmo os menores povoados conviviam naturalmente com vinhedos, adegas familiares e pequenas produções agrícolas, até chegarmos ao nosso destino principal: Gaillac.
Por que Gaillac
Foi justamente meu interesse pelos vinhos de mínima intervenção que me levou a Gaillac. Uma das regiões vitivinícolas mais antigas da França, ela abriga hoje produtores que são referência em agricultura orgânica, biodinâmica e vinhos de forte identidade territorial.
Agora chegou a hora compartilhar as vinícolas que conhecemos pelo caminho. Cada uma delas me ensinou algo diferente sobre vinho, território e sobre as pessoas que dedicam a vida a cultivar ambos.
Château de Haute-Serre: a outra face da Malbec
A primeira parada foi o Château de Haute-Serre, em Cahors. Conhecida principalmente por seus vinhos de Malbec, a propriedade combina história, paisagem e gastronomia de forma impressionante. Durante a degustação, um dos vinhos que mais me surpreendeu foi justamente um espumante rosé elaborado a partir da Malbec pelo método tradicional. Fresco, elegante e complexo, mostrou uma faceta da uva que eu não esperava encontrar. A experiência ficou ainda mais especial com o almoço no restaurante da propriedade, premiado com estrela Michelin, onde os pratos pareciam traduzir a identidade do sudoeste francês com a mesma precisão dos vinhos.
Domaine Michel Issaly: o vinho como modo de vida
A segunda parada nos levou ao Domaine Michel Issaly, uma referência quando o assunto são vinhos naturais em Gaillac. Ali, a agricultura biológica, biodinâmica e agroecológica não aparece como tendência, mas como modo de vida. Foi uma visita que me fez refletir sobre o quanto a observação da natureza, dos ciclos e da biodiversidade continua sendo central para muitos produtores que escolhem trabalhar com mínima intervenção. Há uma serenidade difícil de explicar naquele lugar, uma sensação de que a vinha faz parte de algo maior.
Château Les Vignals: um dia entre vinhas e ânforas
No Château Les Vignals passamos praticamente um dia inteiro imersas na rotina da propriedade. Foi uma das visitas mais completas da viagem. Além dos vinhedos cultivados em biodinâmica, conhecemos diferentes formas de vinificação que buscam reduzir ao máximo a intervenção humana. Menos barricas e mais tanques de inox, ânforas de argila e ovos de concreto. Métodos escolhidos para preservar a identidade do terroir e das uvas.
Ali conheci algumas variedades que ajudam a contar a história de Gaillac. Entre as tintas, me chamaram atenção a ancestral Prunelart, resgatada recentemente na região, além da Braucol e da Duras. Já entre as brancas, minha paixão declarada, foi impossível não me encantar com os vinhos elaborados a partir de Mauzac, Muscadelle e Sauvignon Blanc.
Domaine Gayrard: a experiência mais marcante
Mas foi no Domaine Gayrard que vivi a experiência mais marcante da viagem.
Fomos recebidas por Philippe, um dos responsáveis pela condução atual da vinícola, daqueles anfitriões que fazem a gente se sentir em casa poucos minutos depois de chegar. Sempre sorridente, generoso nas explicações e visivelmente apaixonado pelo que faz, ele nos conduziu por uma tarde que parecia não ter hora para acabar. Entre taças, histórias e caminhadas pelos vinhedos, conversamos sobre agricultura, biodiversidade e vinificação de mínima intervenção. No Domaine Gayrard, assim como em outras propriedades que visitamos em Gaillac, a busca por intervenções mais delicadas também aparece na adega, onde predominam tanques de inox, ânforas de argila e ovos de concreto, recipientes escolhidos para preservar a expressão mais autêntica das uvas e do terroir.
Talvez o que mais tenha me impressionado tenha sido o equilíbrio dos vinhos. Ainda existe quem associe vinhos naturais a excessos, defeitos ou falta de precisão. No Domaine Gayrard encontrei exatamente o contrário: vinhos elegantes, frescos, expressivos e muito bem construídos.
Entre as tintas, voltaram a me chamar atenção a Prunelart e a Duras, duas variedades que parecem traduzir muito bem a identidade local. Já entre as brancas, descobri algumas das uvas mais interessantes de toda a viagem. A Loin de l’Oeil mostrou textura e personalidade. A Mauzac confirmou sua importância histórica para a região. Mas foi a Ondenc que realmente me conquistou. Quase desaparecida durante décadas, essa antiga variedade branca de Gaillac vem sendo resgatada por produtores comprometidos com a preservação do patrimônio vitícola local. Seus vinhos combinam delicadeza, frescor e uma elegância silenciosa que permanece na memória muito depois da última taça.

O que fica de Gaillac
Ao final da viagem, fiquei com a sensação de que Gaillac oferece algo cada vez mais raro no mundo do vinho: a possibilidade de descoberta. Descoberta de uvas ancestrais, de produtores que seguem caminhos próprios e de uma forma de fazer vinho em que a terra continua sendo protagonista. Em tempos de tanta padronização, talvez seja justamente isso que torne a região tão especial.
Ao final da viagem, também levo a certeza de que os melhores vinhos raramente são apenas sobre vinho. São sobre encontros, afeto e histórias compartilhadas. Meu agradecimento a Mônica e Letícia, amigas de tantos anos, por terem vivido tudo isso comigo. Por cada quilômetro percorrido, cada descoberta e cada taça dividida pelo caminho.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.
