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Festival Baiano de Cafés 2026: o Estado financia o grão, mas abandonou a vitrine

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Governo pode até apoiar a produção de café com crédito e pesquisa, mas deixou o maior festival do setor sem fomento justamente na sua maior edição

POR: FELIPE HAVOK

Nos dias 15 e 16 de agosto, o Trapiche Barnabé recebe o Festival Baiano de Cafés 2026, quarta edição do maior evento do segmento no estado: mais de 70 expositores, expectativa de dois mil visitantes por dia e mais de R$ 500 mil em negócios movimentados em um fim de semana.

Tudo isso sustentado quase inteiramente por iniciativa privada: o apoio público que existiu nas edições anteriores, via CAR (Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado), SETUR e Artesanato da Bahia, não foi anunciado até o momento para a edição de 2026, justamente quando o evento atinge sua maior escala.

E que fique claro desde já: este texto não diz que o Estado ignora o café. Diz algo mais incômodo. O Estado apoia o café baiano pela metade: financia o grão e abandona a vitrine.

O estado que colhe 4,4 milhões de sacas

Vamos aos números, porque opinião sem lastro é achismo, e achismo o poder público já produz em escala industrial.

A Bahia deve colher 265.920 toneladas de café em 2025, o equivalente a cerca de 4,4 milhões de sacas, ou 8,2% de toda a produção nacional, segundo dados da Seagri e do IBGE. Somos a maior potência cafeeira do Nordeste, com folga: no Nordeste inteiro, apenas a Bahia exporta café. São 133 mil hectares plantados entre cerrado, planalto e atlântico, do conilon de Itabela ao arábica de altitude da Chapada Diamantina que coleciona prêmios nacionais.

E o café baiano não é promessa, é caixa. Em 2024, o estado exportou cerca de 81,6 mil toneladas do grão e colocou US$ 294,9 milhões na economia estadual. Apenas entre janeiro e abril de 2025, foram mais US$ 199,7 milhões. Divisa estrangeira, saldo comercial, riqueza real saindo do chão baiano.

Da porteira para dentro, o Estado aparece. Da porteira para fora, some

Sejamos justos, porque justiça é o que dá autoridade à crítica. Da porteira para dentro, o poder público existe na cafeicultura baiana. Há crédito rural ao setor, há parceria da Seagri com a Embrapa em pesquisa aplicada, há estações experimentais implantadas em Itabela, para o conilon, e em Barra do Choça, para o arábica, há acompanhamento técnico voltado à agricultura familiar. Ninguém honesto pode dizer que o Estado nunca pisou na lavoura.

O problema é que café especial não termina na lavoura. O valor do café especial se constrói da porteira para fora: na marca, na experiência, na degustação, no encontro entre quem produz e quem compra, no turismo que ele atrai, na cultura que ele carrega. É ali que uma saca deixa de valer commodity e passa a valer história. E é exatamente ali, na etapa que multiplica o valor de tudo o que o crédito financiou, que o Estado desaparece. Financiar a produção e ignorar a promoção é plantar e desistir na hora da colheita simbólica. É tratar o café como grão, quando o mundo inteiro já o trata como cultura.

O Festival Baiano de Cafés 2026 é a maior vitrine dessa etapa no estado. E está, até o momento, sem um centavo público.

Quem sustenta esse café tem nome, rosto e CPF

Porque aqui mora o detalhe que transforma a lacuna em desrespeito. O café baiano não é uma commodity anônima operada por meia dúzia de produtores. A Bahia tem, segundo o próprio secretário estadual de agricultura, o maior contingente de agricultores familiares do Brasil: 665 mil famílias. E são justamente os cafés de pequena propriedade, da Chapada Diamantina e do Sudoeste baiano, que vêm se destacando em concursos nacionais e atraindo compradores do mundo inteiro.

O Café Oficial desta do Festival Baiano de Cafés 2026 resume o argumento melhor que qualquer tese: produzido por Ana Cristina, da Fazenda Ouro Verde, em Barra do Choça, torrado pela Eufrásio Cafés, avaliado com 84,5 pontos, com notas de frutas secas, caramelo, doce de leite e nozes. Uma mulher, uma fazenda, um município do interior, um grão de excelência. O crédito ajudou esse café a nascer. Quem o apresenta ao mundo, porém, é um festival que se financia vendendo ingresso no Sympla.

E há um agravante de calendário que beira o constrangimento: 2026 é o Ano Internacional da Mulher Agricultora, declarado pela Assembleia Geral da ONU, com coordenação da FAO.

A resolução convida expressamente os governos a transformarem reconhecimento em política pública e investimento. O Festival Baiano de Cafés 2026 abraçou a pauta e colocou as mulheres agricultoras no centro da programação. Os entes públicos, que raramente perdem uma foto com bandeira de causa, até agora perderam essa.

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Foto: Arivaldo Publio

R$146 milhões para o São João. A vitrine do café na fila de espera

Que ninguém venha com o argumento do cofre vazio, porque o mesmo estado sabe muito bem financiar evento e celebração quando decide que vale a pena.

O Governo da Bahia destinou R$146 milhões ao São João de 2026, apoiando festejos em 282 municípios. E colheu o que plantou: mais de 2 milhões de visitantes e cerca de R$2,5 bilhões movimentados na economia estadual. Eu não critico um centavo desse investimento. O São João é patrimônio, identidade e máquina econômica, e o retorno prova que fomento público a evento funciona.

É exatamente por isso que a comparação condena. O poder público baiano sabe transformar cultura em economia. Ele simplesmente escolheu não fazer isso pelo café.

E que ninguém confunda gesto com política. O Governo do Estado, por meio da CAR e SETUR, apoiou a segunda e a terceira edições do festival, e o Artesanato da Bahia somou forças na segunda edição. Ou seja: o Estado sabia do evento, reconheceu seu valor, esteve lá por duas edições seguidas, e até o momento não voltou justamente para a maior de todas, no ano em que a ONU pede o contrário. Apoio que comparece duas vezes e some na hora decisiva não é fomento, é fotografia. Política pública se mede pela continuidade, e continuidade é exatamente o que a vitrine do café baiano nunca recebeu. Vale registrar: nessa etapa da cadeia, prefeitura e governo federal não aparecem no histórico nem de passagem.

Um festival que conecta 665 mil famílias produtoras a consumidores, compradores e turistas, coroando uma cadeia que gera centenas de milhões de dólares em exportação, segue operando por conta própria. Se o critério fosse retorno econômico, a vitrine do café já teria fila de secretarias na porta. Se o critério fosse justiça social, idem. Qual é o critério, então?

Transparência: eu jogo nesse time

Antes do arremate, o registro que a honestidade editorial exige. A organizadora do Festival Baiano de Cafés 2026, Brenda Matos, especialista em cafés de qualidade, é colunista deste Muito Gourmet. Conhecemos esse universo por dentro, acompanhamos essa cena de perto e é precisamente por isso que temos autoridade para afirmar: o que falta ao café baiano não é qualidade, não é público, não é competência de quem organiza, e não é nem mesmo crédito para produzir. O que falta é o Estado na hora de celebrar, promover e vender. Esta não é uma defesa de um evento. É a cobrança de uma política completa.

O manifesto

A Bahia não precisa que o poder público invente o seu café. O café já existe, já premia, já exporta, já sustenta famílias e já lota o Trapiche Barbané. A Bahia precisa que o poder público termine o trabalho que ele mesmo começou na lavoura: se há crédito para plantar, que haja fomento para mostrar. Apoio renovado ao festival é o mínimo. Política estruturada de promoção do café baiano, com marca territorial, presença permanente no calendário oficial de eventos e a vitrine tratada com a mesma seriedade que a produção, é a obrigação. Enquanto isso não vem, que fique registrado: quem está construindo a vitrine do café baiano é a iniciativa de quem produz, torra, serve e acredita. E ela não deveria estar sozinha.

Festival Baiano de Cafés 2026
Foto: Arivaldo Publio

Fontes:

Produção de café na Bahia (265.920 toneladas, 4,4 milhões de sacas, 8,2% nacional, 133 mil hectares, Seagri/IBGE):

Exportações baianas (81,6 mil toneladas e US$ 294,9 milhões em 2024; US$ 199,7 milhões jan-abr 2025, Seagri):

Bahia como única exportadora de café do Nordeste (2,8% do volume nacional em 2024, Banco do Nordeste/BNB):

665 mil agricultores familiares na Bahia, maior contingente do Brasil (declaração do secretário estadual de agricultura, via Embrapa):

Destaque dos cafés da agricultura familiar baiana (Chapada Diamantina e Sudoeste, FAO):

Investimento estadual no São João 2026 (R$ 146 milhões, 282 municípios):

Movimentação econômica do São João 2026 (R$ 2,5 bilhões, mais de 2 milhões de visitantes, Setur-BA):

Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026 (resolução ONU A/RES/78/279, coordenação FAO):

Festival Baiano de Cafés 2026 (programação, expositores, números, Café Oficial, promotores):


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