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Por que seguimos bebendo vinho tinto errado?

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Uma provocação sensorial em plena Salvador: será que ainda faz sentido empurrar vinho tinto com sushi?

Calor de 30 graus. Sushi na mesa. E uma taça generosa de um vinho tinto encorpado para acompanhar. Essa cena, tão comum em Salvador, e nas mesas brasileiras em geral, é o ponto de partida para a nova reflexão da sommelière Carol Souzah.

Com sua escrita afiada e saborosamente crítica, Carol convida os leitores a repensarem hábitos enraizados e desafia a supremacia do vinho tinto como escolha automática, independentemente do prato ou da estação.

Afinal, por que o brasileiro ainda vê no vinho tinto e potente um sinônimo absoluto de sofisticação? E o que podemos aprender com culturas que já transformaram seu modo de beber — como os ingleses, que hoje celebram brancos leves, rosés secos e espumantes gastronômicos?

Mais do que uma crítica ao tinto fora de hora, este artigo é um convite: a expandir o repertório, afinar o paladar e viver o vinho com mais intenção, curiosidade e prazer. Porque, como Carol defende com paixão, vinho bom é aquele que faz sentido, no prato, no clima e na boca.


Por que seguimos bebendo vinho tinto errado?

Já virou um clássico nas mesas brasileiras: tá calor? Tinto. Tá frio? Tinto. Vai comer peixe, carne, pizza ou pastel? Tinto também. Malbec, de preferência. Cabernet, se tiver. Se for encorpado, com barrica e tanino sobrando, melhor ainda.

O vinho tinto encorpado virou o padrão absoluto de consumo por aqui, e em Salvador, então, nem se fala. Ele reina soberano nas cartas e nas escolhas, independentemente do prato, do clima ou do contexto.

A pergunta é simples: por que isso ainda acontece?

A resposta cabe em duas palavras: repertório e curiosidade.

O brasileiro foi educado a ver o vinho tinto como sinônimo de elegância, sofisticação e qualidade. A cor escura virou fetiche, e qualquer vinho que não seja “potente” é tido como fraco, sem graça ou inferior. Acontece que essa ideia é ultrapassada, e, não sobrevive ao paladar quando a comida entra em cena.

Quem vive em Salvador sabe: basta entrar num restaurante japonês, inclusive nos mais tradicionais, e o que predomina nas mesas são garrafas de vinho tinto. Tinto com salmão cru. Tinto com atum. Tinto com arroz avinagrado e molho de soja.

A real é que essa combinação não faz o menor sentido sensorial.

O tanino do vinho entra em atrito com as proteínas do peixe cru, gerando um gosto metálico na boca, amargor persistente e uma secura que trava o paladar. Em vez de frescor, peso. Em vez de prazer, conflito.

É como usar casaco de lã em dia de praia. Você pode? Pode. Mas… por que faria isso?

Enquanto isso, em países com repertório mais desenvolvido, como a Inglaterra, o cenário é outro.

Segundo a OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) e a revista Decanter, os vinhos mais consumidos atualmente no Reino Unido são Prosecco, espumantes ingleses, rosés secos e brancos leves como Sauvignon Blanc e Pinot Grigio. O consumo de vinho tinto caiu de cerca de 48% para 40% nas últimas duas décadas, enquanto os brancos e rosés assumiram o protagonismo.

E tem mais: basta a temperatura chegar aos 20 °C que as vendas de rosé no verão inglês disparam 150%, segundo dados da rede Waitrose e da consultoria CGA Strategy. O rosé Champagne, por exemplo, já representa 15% de todas as garrafas de Champagne vendidas no país.

Isso mostra uma coisa: paladar se educa.

E repertório se constrói.

Os ingleses não bebem mais espumante ou branco porque estão “de modinha”. Eles consomem esses vinhos porque fazem sentido com o clima, com os pratos, com o momento. Isso é maturidade de consumo.

Enquanto isso, por aqui, seguimos empurrando Malbec com sushi e nos churrascos sob o sol escaldante do verão baiano. Quando, na verdade, poderíamos muito bem estar acompanhando essas ocasiões com um bom espumante: fresco, versátil, que limpa o paladar da gordura da carne e ainda acompanha lindamente peixes crus. Aliás, minha gente, espumante vai bem com tudo.

Na minha trajetória com o vinho, essa mudança de perspectiva me alcançou há muito tempo. Hoje, minhas escolhas pessoais passam longe do que é apenas potente. Tenho preferido os brancos leves e frescos, com acidez que limpa o paladar e convida ao próximo gole. Me apaixonei pelos laranjas, especialmente quando o prato exige estrutura, eles têm tanino, textura, profundidade e, ao mesmo tempo, leveza.

E nos tintos, o que me encanta são os mais leves e gastronômicos. Aqueles que expressam o terroir com verdade, sem maquiagem, sem intervenção excessiva. Que não tentam ser maiores do que são.

Essa é a minha verdade, e é isso que ensino.

Nas minhas degustações, harmonizações e cursos, eu prego a palavra dos brancos e dos tintos leves. Estimulo meus alunos e clientes a sair da zona de conforto e provar o que nunca beberiam sozinhos. Porque é aí que mora a transformação do gosto.

Abrir a cabeça e o paladar é também experimentar outras cores e sensações.

Um branco de acidez vibrante levanta um prato. Um espumante brut traz leveza e clareza ao paladar. Um rosé seco e gastronômico pode acompanhar desde frutos do mar a queijos de massa mole.

E os vinhos laranja, então? Um espetáculo à parte.

Feitos com uvas brancas vinificadas com as cascas, eles trazem estrutura, tanino sutil e uma textura que acompanha comida tailandesa, pratos com curry, queijos curados e até moquecas com dendê. São vinhos gastronômicos, complexos e de final longo, perfeitos para quem quer sair da mesmice e viver o vinho com profundidade.

Mas o preconceito ainda pesa. Especialmente quando falamos de vinhos naturais.

No Brasil, o consumo desse estilo é irrisório. E o pouco que se fala é quase sempre com um tom de deboche: “são vinhos rústicos demais”, “instáveis”, “cheiram mal”, “vinho com defeito”. O problema é que quem repete isso raramente provou bons vinhos naturais.

Como já falei em outra coluna, a verdade é que grande parte dos vinhos mais desejados do mundo hoje são naturais. Produtores icônicos da França, Itália, Eslovênia, Espanha e até Argentina migraram para esse tipo de produção. Os vinhos de maior prestígio em cartas de restaurantes premiados muitas vezes são naturais, biodinâmicos ou de mínima intervenção.

Isso não é tendência. É um caminho sem volta.

Porque o consumidor que aprofunda seu repertório busca pureza, autenticidade e identidade. E isso, muitas vezes, só se encontra onde há menos maquiagem e mais verdade na taça.

Não se trata de abandonar o vinho tinto. Ele é maravilhoso, quando bem escolhido e no contexto certo. Tenho um tinto brasileiro que amo profundamente: o Dom Dionysius Merlot, da Serra Gaúcha, assinado por Ivan Tisatto. Um exemplar de baixa intervenção, que mostra o terroir com autenticidade, delicadeza e elegância.

Queria que todo mundo nesse Brasil tivesse a chance de provar essa belezura, um vinho gastronômico, puro, cheio de alma. Aquele vinho que não se esquece. Leve, elegante e com verdade na taça.

Por isso repito, vinho não pode ser escolha automática. Precisa de intenção.

Mais do que regra, o que proponho é curiosidade.

Explorar, harmonizar, questionar. Trocar o tinto de sempre por uma experiência nova. Porque vinho não é sobre repetir, é sobre descobrir.

E quem bebe vinho com repertório, vive o prazer com mais clareza.

Quem não, segue empurrando tinto com salmão.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


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