InícioColunaO vinho em pausa: o que o Mounjaro faz com o desejo...

O vinho em pausa: o que o Mounjaro faz com o desejo de beber

PUBLICADO EM

Quando o medicamento que esvazia o apetite também esvazia a taça

Há um fenômeno silencioso atravessando o mundo do vinho, e ele não vem das vinícolas, dos críticos ou das tendências de consumo das novas gerações. Vem da farmácia.

Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP, como o Mounjaro (princípio ativo tirzepatida), originalmente desenvolvidos para diabetes tipo 2 e perda de peso, têm produzido um efeito colateral inesperado: a redução abrupta do desejo de beber.

Estudo publicado na revista Scientific Reports demonstrou que tanto a média de doses consumidas quanto as chances de binge drinking foram significativamente menores em grupos que usavam Semaglutida e Tirzepatida em comparação ao grupo controle Nature.

Uma pesquisa mais recente, publicada na eBioMedicine em 2026, foi além: tirzepatida atenuou as propriedades recompensadoras do álcool em modelos animais, com queda de mais de 50% no consumo voluntário Neuroscience News.

A Carol Souzah, sommelière e colunista do Muito Gourmet, viveu esse fenômeno na própria experiência profissional, e nesta coluna ela divide o que aconteceu com seu paladar, sua relação com o vinho e a pergunta que ainda não tem resposta: o que sobra da experiência sensorial quando o desejo se desliga?

O vinho em pausa: o que o Mounjaro faz com o desejo de beber

Tem uma coisa curiosa acontecendo no mundo do vinho, e eu senti isso antes mesmo de ler qualquer estudo.

Quando comecei o tratamento com Mounjaro, não pensei no impacto que isso teria no meu trabalho. Como sommelière, eu provo vinhos o tempo inteiro, em eventos, treinamentos, degustações. O vinho, pra mim, não é só consumo, é linguagem, é ferramenta, é conexão. Mas, de repente, algo mudou.

Eu não queria beber.

Não era esforço, disciplina ou escolha consciente. Era ausência de vontade mesmo. E, mais estranho ainda, quando eu bebia, não era a mesma coisa. O prazer não vinha. A curiosidade diminuía. Meu paladar parecia… desligado. Como se a experiência perdesse um pouco da sua força, como se faltasse aquele impulso invisível que transforma uma taça em descoberta.

Eu comecei a brincar que estava vivendo uma espécie de “apagão sensorial etílico”. Uma interferência silenciosa entre o vinho e o cérebro.

Por sorte e por azar, precisei interromper o tratamento. Azar porque eu também queria os efeitos do emagrecimento, que acabei não tendo; por sorte porque, algum tempo depois, tudo voltou. O interesse, o prazer, a leitura do vinho, como se alguém tivesse religado um circuito.

Conversando com amigos, ouvi relatos muito parecidos. Gente dizendo que perdeu o interesse por beber, que abriu uma garrafa e simplesmente esqueceu, que o vinho deixou de chamar. Comecei a chamar isso de “greve das papilas”.

Mas será que foi só impressão minha?

A ciência por trás do silêncio do paladar

Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports já aponta que medicamentos dessa classe, como a tirzepatida, podem reduzir significativamente o consumo de álcool. E os dados mais recentes ajudam a entender a dimensão disso: pesquisas indicam que esses medicamentos podem levar a uma redução de cerca de 30% a 40% no consumo de álcool, e que até 45% das pessoas relatam beber menos durante o uso.

O motivo vai além da saciedade. Esses fármacos atuam diretamente no sistema de recompensa do cérebro, reduzindo o desejo, o impulso, aquela vontade meio automática que muitas vezes guia o consumo, seja de comida ou de bebida.

E aí vem a pergunta que mais me interessa: e o vinho nisso tudo?

O vinho não escapa dessa lógica

Por mais que a gente goste de pensar o vinho como cultura, ritual, memória, ele também atravessa o cérebro, o prazer, a dopamina. Quando essa vontade muda de intensidade, o vinho muda junto, e foi aí que eu percebi, na prática, o quanto ele vai além da bebida. O vinho é experiência sensorial. E, quando essa conexão enfraquece, a experiência perde força. Não é apenas beber menos, é sentir menos. É como se o vinho falasse mais baixo, e eu, que sempre gostei de ouvi-lo em alto e bom som, passei a perceber esse silêncio.

Eu ainda tenho mais perguntas do que respostas. É tudo muito recente, e está longe de mim escrever isso como quem tem certezas. O que posso fazer é compartilhar o que vivi na pele, ou melhor, na cabeça e na língua.

Ainda não existem dados globais que comprovem que o consumo de vinho caiu por causa do Mounjaro. O que existe é um cenário mais amplo: novas gerações bebendo menos, mudanças de comportamento e, agora, um novo fator silencioso entrando em cena.

Mas talvez a pergunta mais interessante não seja sobre mercado. Talvez seja sobre percepção.

O que acontece com o vinho quando a vontade deixa de surgir com naturalidade?

E mais, me pergunto se isso já aconteceu com você?

Se sim, me conta. Acho que essa conversa está só começando.


Perguntas Frequentes

O Mounjaro reduz mesmo a vontade de beber álcool?

Sim. Estudos publicados em revistas científicas como Scientific Reports e eBioMedicine apontam que medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP, como a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro), reduzem significativamente o consumo de álcool e o impulso de beber. O efeito atua no sistema de recompensa do cérebro, não apenas na saciedade física.

Por que o paladar para vinhos parece “desligar” durante o tratamento com Mounjaro?

Porque o vinho não é apenas uma bebida, é uma experiência sensorial mediada pela dopamina e pelo sistema de recompensa cerebral. Quando o medicamento reduz a resposta dopaminérgica ao álcool, a percepção de prazer, a curiosidade sensorial e o desejo de explorar o vinho diminuem em conjunto. Não é só beber menos, é sentir menos.

O efeito sobre o paladar volta ao normal após interromper o Mounjaro?

Segundo relatos e a experiência da própria colunista Carol Souzah, sim. Após a interrupção do tratamento, o interesse pelo vinho, o prazer da degustação e a leitura sensorial retornaram gradualmente, como se o circuito de recompensa fosse religado. Não há, no entanto, estudos longitudinais que mensurem esse retorno com precisão.

Carol Souzah sommèliere e jornalista

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah

Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.

A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.


Siga o Muito Gourmet no Instagram e fique por dentro de todas as novidades gastronômicas de Salvador!

Últimos Artigos

Dia das Mães em Salvador: Deville Prime promove almoço com buffet e música ao vivo em Itapuã

Hotel abre as portas para hóspedes e não hóspedes em 10 de maio, com...

Dia do Churrasco: Restaurante Carvão lança Menu Experiência em sete etapas

O percurso assinado pelo chef Guto Lago coloca a cozinha de fogo no centro...

Fasano Salvador Convida reúne Alberto Pitta e Ernesto Bitencourt em cartografia afetiva da arte baiana

Curadoria conjunta abre a edição 2026 do projeto com obras de Carybé, Tatti Moreno,...

O café merece mais do que um dia no calendário

Em sua nova coluna para o Muito Gourmet, Brenda Matos provoca: celebrar o produto...

leia mais

Dia das Mães em Salvador: Deville Prime promove almoço com buffet e música ao vivo em Itapuã

Hotel abre as portas para hóspedes e não hóspedes em 10 de maio, com...

Dia do Churrasco: Restaurante Carvão lança Menu Experiência em sete etapas

O percurso assinado pelo chef Guto Lago coloca a cozinha de fogo no centro...

Fasano Salvador Convida reúne Alberto Pitta e Ernesto Bitencourt em cartografia afetiva da arte baiana

Curadoria conjunta abre a edição 2026 do projeto com obras de Carybé, Tatti Moreno,...