O que você verá na matéria:
Regenerativa não é apenas um termo técnico que começa a circular no mundo do vinho. É uma mudança de consciência. Uma inversão de lógica. Uma pergunta que antecede o aroma, a pontuação e até o prazer: o que aconteceu com a terra antes de esse vinho chegar à taça?
Na nova coluna, Carol Souzah desloca o centro da conversa. Em vez de madeira, textura ou notas de fruta, ela fala de solo vivo, biodiversidade e impacto climático. Fala de vinhedos que respiram, e de outros que se tornam desertos silenciosos. Mostra que o vinho não nasce na adega, mas na relação entre raiz e terra.
Entre o cultivo orgânico, a biodinâmica e a agricultura regenerativa, o debate deixa de ser tendência e passa a ser responsabilidade. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de qualidade sensorial. Trata-se de futuro.
E talvez essa seja a grande virada do vinho contemporâneo: entender que levantar uma taça também é escolher que tipo de paisagem queremos sustentar.
O futuro do vinho nasce do solo: do cultivo orgânico à regeneração, o impacto no que bebemos
Existe uma parte do vinho que a gente não vê na taça. Ela está debaixo dos nossos pés.
Durante muito tempo, quando se analisava um vinho, as respostas vinham em sensações organolépticas, menções à madeira, comentários sobre textura, pontuações, era assim que se media qualidade. Hoje, pelo menos pra mim, antes de pensar em aroma ou estrutura, a pergunta que me atravessa é outra: em que tipo de solo essa videira cresceu, como esse vinho nasceu?
Porque o solo não é um detalhe agrícola, principalmente quando se fala de vinho.
Ele é uma escolha técnica, ética, sensorial e ambiental. E solo vivo não é metáfora, insisto.
É um organismo cheio de microrganismos, fungos, raízes profundas, matéria orgânica, água circulando, ar entrando. É um sistema que se alimenta e se equilibra. Quando a videira cresce ali, ela precisa cavar fundo, explorar camadas, reagir ao clima, criar defesas naturais. O vinho que nasce desse processo tem tensão, tem vibração, tem identidade.
Solo morto é outra história.
O uso contínuo de herbicidas e fertilizantes sintéticos compacta a terra, elimina a vida microbiana e transforma a planta em dependente de insumos. A raiz fica superficial, a videira para de buscar o lugar. E quando a uva perde essa relação com o ambiente, quem precisa construir o vinho depois é a técnica, a técnica da maquiagem.
Ajusta a acidez, corrige a cor, entra com levedura aromática, com madeira para dar estrutura e corrigir alguns defeitos.
Fica tudo certo.
E fica tudo igual.
Existem vinhedos onde o cheiro já não é de terra, mas de produto químico. É impossível não pensar no que isso significa quando a gente fala de prazer e de natureza dentro de uma taça.
Por outro lado, existem vinhas onde quem faz a poda da vegetação são animais soltos entre as fileiras. Ovelhas, galinhas, às vezes até cavalos. Eles comem, adubam, circulam, compactam o solo na medida certa. Não é uma cena montada para foto, é um ecossistema funcionando.
E é aqui que entra uma palavra que ainda vai aparecer muito no mundo do vinho: Agricultura regenerativa.
Ontem estive em uma degustação e provei alguns rótulos da Miguel Torres, do Chile, cultivados sob os princípios da agricultura regenerativa. Foi bonito ver o representante falar desses vinhos e do trabalho no vinhedo com tanta paixão e convicção. E a taça confirmava o discurso: vinhos vivos, de acidez vibrante, aromas precisos e cheios de frescor, tudo em equilíbrio, sem excessos.
Vou explicar um pouco, ainda que de passagem, porque muita gente confunde e é bonito perceber as diferenças. O orgânico parte da exclusão dos químicos de síntese. O biodinâmico vai além, entende o vinhedo como um organismo vivo, trabalha com preparados naturais e observa os ciclos da lua e o ritmo do cosmos para definir o momento de plantar, podar, colher, trasfegar. Pode soar poético, tem quem ache um exagero ou chame de “haribô” essa mistura de agricultura com astrologia, mas vale lembrar que o nosso calendário é lunar há milênios, que a lua move os mares e regula ciclos biológicos. Por que não influenciaria a agricultura?
E se você ainda torce o nariz para a biodinâmica, eu sinto dizer: talvez seja melhor riscar da sua lista o sonho de um dia provar um Romanée-Conti. O Domaine de la Romanée-Conti começou a conversão dos vinhedos nos anos 1990 e hoje é integralmente certificado. Sim, um dos vinhos mais desejados do planeta nasce sob os princípios que muita gente ainda insiste em chamar de “exagero”. Eu sempre penso que, no vinho como na vida, o preconceito não protege ninguém, só empobrece o repertório. Quem bebe impondo barreiras ideológicas à forma de cultivo não está defendendo qualidade, está apenas limitando a própria experiência.
Continuando pelas diferenças, chegamos ao vinho natural, que está mais ligado à intervenção mínima na adega do que propriamente a um protocolo agrícola específico, embora quase sempre venha de vinhas cultivadas com esse mesmo cuidado.
A regenerativa compartilha vários desses princípios, mas tem um foco muito claro: devolver vida ao solo, capturar carbono da atmosfera, ampliar a biodiversidade e, principalmente, recuperar paisagens empobrecidas pela agricultura convencional. No fundo, é sobre curar.
É por isso que ela se parece com a biodinâmica em alguns pontos, as duas entendem a terra como um organismo, trabalham com cobertura vegetal, respeitam ciclos naturais. Mas a regenerativa mede impacto ambiental de forma direta, fala de clima, de água, de futuro do planeta com uma objetividade que dialoga com o mundo de hoje. E isso muda tudo.
Porque a gente começa a perceber que existem vinhos que nascem de solos que estão se tornando desertos, e outros que nascem de solos que estão voltando a respirar. Os dois chegam à mesa. Mas só um devolve vida à paisagem.
Essa conversa não é técnica, ela é sensorial. E talvez essa seja uma das grandes mudanças no mundo do vinho hoje. A gente não deveria pensar apenas se o vinho é bom, mas buscar entender o que ele causou até chegar à taça. Beber sempre foi um ato cultural e, cada vez mais, se revela também um gesto ambiental.
No fim das contas, não é sobre agricultura, é sobre relação, com a terra, com o tempo e com aquilo que a gente escolhe sustentar quando levanta uma taça.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.
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