O que você verá na matéria:
O repertório sensorial começa fora da taça
Degustar vinhos é o ponto de partida da nova coluna de Carol Souzah, que desmonta o mito de que identificar aromas é um talento reservado a iniciados. Com linguagem sensível e acessível, ela nos lembra que degustar é, antes de tudo, um exercício sensorial, de corpo inteiro, sendo um verdadeiro treino do olhar, do olfato, do tato, do paladar e, acima de tudo, da memória.
Em um mundo que anestesia os sentidos com ar-condicionado e fragrâncias artificiais, a taça vira um convite ao desacelerar, ao respirar com atenção e reconhecer o que já vive em nós: lembranças de feira, cozinha, terra molhada, flor no quintal. Carol defende que o olfato não é uma habilidade de poucos, mas um músculo coletivo que só precisa ser exercitado.
Essa coluna é também um convite ao autoconhecimento sensorial. Degustar vinhos é degustar tempo, presença e confiança.

Degustar vinhos é treinar os sentidos
Uma das frases que mais escuto quando conduzo cursos ou degustações é: “eu não sinto nada no nariz”. Às vezes vem acompanhada de frustração, às vezes de vergonha, como se perceber aromas no vinho fosse um dom reservado a poucos. A boa notícia é simples: sentir aromas no vinho não é talento, é treino.
Degustar vinhos é, antes de tudo, um exercício sensorial. Envolve visão, olfato, paladar e memória. Mas é no nariz que muita gente trava. Não porque o vinho não tenha aromas, e sim porque nosso olfato anda pouco estimulado no dia a dia.
Beber vinho é uma experiência multissensorial. Ele envolve o corpo inteiro. O olhar, o toque, o cheiro, os sons, tudo se mistura para construir a memória daquele momento. Dos cinco sentidos, o vinho desperta todos. O olfato reconhece aromas que nos remetem a lembranças afetivas. O tato percebe a temperatura do vinho, a textura na boca, o peso da taça. O som do vinho sendo servido ou da rolha se soltando já prepara o corpo para a experiência. Até a visão importa: a cor do vinho no copo, o brilho, a luz do ambiente, o rótulo. Nada é detalhe, tudo soma.
Vivemos em ambientes cada vez mais neutros, climatizados, com cheiros artificiais e repetitivos. Isso empobrece o repertório olfativo. Quando a pessoa leva a taça ao nariz, espera identificar algo muito específico e, quando isso não acontece, conclui que não sente nada. Na verdade, sente sim, só ainda não sabe nomear.
Durante as degustações que conduzo, costumo dizer que o aroma do vinho não está apenas na taça, ele está na nossa memória. O vinho desperta referências. Para alguém pode lembrar fruta madura, para outra pessoa pode remeter a um chá, a um tempero da cozinha, a um passeio no mercado. Nenhuma dessas percepções está errada.
Treinar o nariz começa fora do vinho. Ir à feira, cheirar frutas, ervas, especiarias. Prestar atenção aos cheiros da cozinha, do café, da terra molhada, das flores. Quanto mais você cheira conscientemente, mais seu cérebro cria repertório sensorial.
Outro ponto importante é desacelerar. Em muitas degustações percebo que as pessoas cheiram rápido demais. O olfato pede tempo. Girar a taça com calma, aproximar o nariz sem pressa, respirar. Às vezes o aroma não aparece no primeiro instante, ele se revela aos poucos.
Também reforço que não é preciso sentir tudo. Nem profissionais sentem tudo o tempo inteiro. Degustar não é um teste, é uma experiência. Quando tiramos o peso da performance, os sentidos se abrem.
O nariz prepara o paladar. Grande parte do que chamamos de sabor vem do olfato. Quando ele está mais atento, a boca entende melhor o vinho, sua textura, sua acidez, seu equilíbrio.
Degustar vinhos é treinar presença. É aprender a confiar nas próprias percepções e aceitar que elas mudam com o tempo. Quanto mais você se permite sentir sem julgamento, mais o vinho se revela.

Sobre Linha Editorial e a Carol Souzah
Carol Souzah é sommelière, jornalista e nova colunista do Muito Gourmet.
A sommelière abordará inovações no mundo dos vinhos, curiosidades, harmonizações, aspectos socioeconômicos, sustentabilidade, ética na produção e muitas dicas.
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